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Esportes

Esqueceram dele, mas tiramos o Lulu da geladeira

por
Isabela Rocha
Publicada em 26/10/2009 07:17:43

Hoje aos 82 anos de Idade, o ex-piloto baiano Lulu Geladeira leva uma vida tranquila com a esposa, dois filhos e netos. Em um dos quartos do apartamento onde mora, no bairro de Ondina, ele guarda parte dos troféus que ganhou, e em uma das paredes exibe um mural com reportagens que ressaltavam o sucesso que ele fazia em corridas por todo o Brasil. Com um boné da escuderia Ferrari na cabeça, hoje ele diz não sentir saudade daquela época: “A coisa melhor do mundo é sair na hora certa. Sair no auge”, salientou Lulu Geladeira, afirmando entretanto que ama o automobilismo, é fã da Ferrari e não perde uma corrida de Fórmula-1.
Quando a Tribuna da Bahia foi fundada em 1969, Luís Pereira dos Santos, nome de batismo de Lulu Geladeira, o piloto já estava no auge da sua carreira e fazia sucesso nas corridas de rua que eram realizadas na Avenida Centenário, aqui em Salvador. Mas, a carreira de Geladeira começou em meados dos anos cinquenta, quando ele tinha 23 anos e trabalhava com o pai em uma oficina de refrigeração na Avenida Sete de Setembro. “O Apelido Lulu Geladeira veio justamente porque ele trabalhava nessa área de refrigeração. Ele e meu avó inclusive montaram sistemas de refrigeração no hospital Espanhol e no Hospital Português”, disse Luiz Carlos Gantois Santos um dos filhos do piloto.
Naquela época, os pilotos corriam por diversão, por isso Lulu Geladeira nunca abandonou o trabalho que exercia com o pai. Nas horas vagas ele participava das primeiras corridas de rua que eram realizadas em Salvador. A aventura tinha início no Farol da Barra. Dali os carros passavam pelo Barravento, e as ruas Aurora Galvão e Afonso Celso, ambas na Barra. Da década de 60, o piloto baiano começou a se consagrar, não só na Bahia, mas em todo o Brasil. “Nunca perdi uma corrida”, diz Lulu, que venceu mais 47 corridas em todo o Brasil, mas a maioria foi nas ruas de Salvador.
Em 1967, as famosas corridas na Avenida Centenário tiveram início. Naquele tempo, com um Puma-VW de 2.200 cilindradas, Lulu Geladeira era integrante da muito bem estruturada Equipe AF (Adriano Fernandes) e era “Quente no volante”, como destacou uma reportagem da época. Era imbatível, osso duro de roer. Porém apesar da invencibilidade conquistada, o baiano ressaltou em entrevista à Tribuna da Bahia que corria para “ganhar troféu e fama”. Segundo Lulu Geladeira foram poucas as vezes que ele recebeu prêmio em dinheiro e quando recebia não dava nem para comprar um jogo de pneus para o carro.
A pista da Centenário tinha 3.090 metro e a corrida tinha em média 35 voltas. Os pilotos corriam com protótipos, ou seja, cada um equipava e motorizava o carro como queria, independente de marca, potência ou cor. “Naquela época o carro era o que menos valia. O piloto que tinha que ser bom. Tinha que ter muita coragem para participar de uma prova”, relembra Geladeira, que já chegou a correr em uma velocidade de 200km/h no asfalto da Centenário.
No automobilismo regional nordestino, Lulu Geladeira também era o homem a ser batido e isto numa geração de bons pilotos como os cearenses Neném Pimentel, Antonio Cirino e Arialdo Pinho, os pernambucanos Fernando Burle e Ramon Cortiso, e seus pares baianos Leonardo Godoy, Carlos Medrado, Mauricio Feinstein, Ivan Cravo, José Luis Bastos, entre outros. Em seu cartel, Lulu conquistou a primeira vitória oficial na inauguração do Autódromo Virgilio Távora, em Fortaleza, em 1969, e outras no Recife, na Cidade Universitária.

1972: Última corrida na Centenário

Em agosto de 1972, com mais de 40 anos, a lenda do automobilismo baiano resolveu encerrar a carreira. Ele conta que foi motivado por uma decisão do então Governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães (ACM), que mandou terminar as corridas naquele local e ele acabou não querendo mais correr. Teve convites para ir para outros estados e países, mas não quis deixar a família. Segundo Lulu Geladeira e o filho Luiz Carlos, ACM pegou um engarrafamento na ladeira da Barra e quando soube que era por causa da corrida, disse não queria mais saber de automobilismo na Bahia. “É por isso que hoje a Bahia ainda não conseguiu ter um autódromo, ele não deixava”, afirmou Lulu Geladeira.
Por outro lado, a atual presidente da Federação de Automobilismo da Bahia (FAB), Selma Moraes, acha que o fato das corridas terem sido extintas não tem nada a ver com o ex-político. “Eu acho que isso é um mito. Eu nunca ouvi isso da boca de ACM ou de algum coordenador dele. Acredito que as provas pararam porque corrida de rua atrapalhavam muito, apesar do público adorar as competições”, opinou Selma Moraes.
Verdade ou não, após aquela prova de 1972, o automobilismo baiano ficou esquecido durante 33 anos. Nenhuma competição foi realizada até 2005. Selma admite que “dificilmente teve dirigentes esportivos que lutassem pelo esporte aqui na Bahia. O pessoal do Rally ia correr fora de Salvador”.
O automobilismo de rua, na forma praticada antigamente, era o auge do romantismo. No Brasil de 1972 só existiam quatro autódromos de asfalto funcionando: Interlagos, Tarumã, Curitiba e Fortaleza. O autódromo do Rio fora interditado. Portanto, em tese, a maioria das corridas era realizada nas ruas. 
Apesar de toda a fama do pai, os filhos e os netos de Lulu Geladeira não quiseram seguir a carreira de piloto. “Nem eu, nem meu irmão gostamos de correr. Eu nem sei dirigir direito. Gosto apenas de ver corridas. Perco a mulher, mas não perco uma corrida de Fórmula-1, afirmou Luiz Carlos Gantois, que aos 16 anos viu as corridas do pai na Avenida Centenário. "Acompanhávamos ele, levávamos nossos amigos.. Tinha orgulho de dizer que meu pai era um campeão. Só minha mãe, casada com ele há 58 anos, que ia rezar, quando ele ia correr. Ela não gostava”, lembrou o filho mais velho de Geladeira.

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