Rio dos Macacos é quilombo, diz Incra
O Incra confirmou, ontem, que a população que está sendo expulsa pela Marinha do Brasil de uma área próxima da Base Naval de Aratu é mesmo um quilombo, sendo sua origem anterior à chegada da armada brasileira ao local.
O documento que atesta esta informação deve ficar pronto em uma semana e será enviado para a presidente Dilma Rousseff. Com isso, pode estar próxima a solução do impasse, que vem repercutindo em todo país, principalmente devido aos métodos que a Marinha, supostamente, tem usado para tentar retirar os quilombolas da área.
Para concluir o estudo, os técnicos do Incra abriram um parêntese na greve nacional da categoria iniciada no dia 18 de junho. “Temos nossa luta, mas ficamos sensibilizados com a luta deles que é muito mais dramática”, disse Aroldo Andrade, chefe da divisão de ordenamento da estrutura fundiária do órgão.
O trabalho de pesquisa do Incra, iniciado em 6 de dezembro de 2011 – interrompido pela Marinha por um mês - levantou ainda dados geográficos sobre o quilombo. São 62 famílias que ocupam uma área de 300 hectares. “Não é o trabalho de nossa equipe declarar que a comunidade é um quilombo, mas pesquisar dados que levam a esta conclusão, e isso fica claro no estudo”, destaca Andrade.
A Constituição, no seu artigo 68 dos atos das disposições transitórias, garante aos remanescentes das comunidades dos quilombos, que estejam ocupando suas terras, que seja reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os respectivos títulos.
“Eles não sabia que nós estávamos trabalhando. Paramos apenas na primeira semana da greve, depois decidimos continuar, pois sabemos o que a comunidade vem sofrendo”, ressaltou Andrade, que aproveitou a reuniao para comunicar que a conclusão do relatório está a uma semana do final.
Ela não sabe, por ser analfabeta, assim como quase todos os quilombolas de sua geração, que seu relato lembra mais os anos de ditadura militar do que os anos de escravidão. “Desde que a vila militar foi construída, vivemos cercados e durante minha infância não podíamos sair para ir à escola”, conta.
Nos últimos três anos, se é verdade o que narra a população do quilombo, a Marinha vem “torturando” a comunidade para que eles saiam do terreno que a Constituição lhes dá posse. Uma das vítimas dos métodos utilizados, Antônio Alexandria, 76, está no Hospital do Subúrbio, devido às pressões que, supostamente, sofreu dos marinheiros.
De acordo com seus relatos, helicópteros estão sobrevoando o quilombo durante a noite, lançando luzes de potentes refletores sobre as casas. Até as fontes de sustento da comunidade teriam sido atingidas por supostas táticas de expulsão. Mais de 150 mangueiras estão morrendo sem explicação.







