Meninos disputam balas na Liberdade
TRÂNSITO AO VIVO
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
FIQUE SABENDO AGORA
PUBLICIDADE
Cidade

Meninos disputam balas na Liberdade

por
Carlos Vianna Júnior
Publicada em 28/09/2012 00:15:21

Enquanto fiéis celebram o dia dos irmãos médicos dentro da Paróquia Santos Cosme e Damião, na Rua Lima e Silva, na Liberdade; do lado de fora meninos de todas as idades esperam pelos doces que são lançados ao ar a todo instante. Apesar de ser parte de uma celebração religiosa, a brincadeira parece ser levada a sério demais e acaba se transformando em uma competição.

De mochila nas costas, eles se juntam em grupos e disputam para ver quem acumula mais “queimados” durante o dia. Para proteger os fiéis da determinação dos jovens, a igreja mantém cerca de 15 seguranças na porta da igreja, que nem sempre é suficiente. “Acabei me machucando porque um deles meteu a mão pela grade e puxou com muita força o saco de queimados que trouxe”, conta Deise Barbara Silva, mostrando o sangue que corre do dedo machucado.

Até mesmo os jovens que participam admitem que às vezes a brincadeira chega a ser violenta. “Tem hora que sai briga mesmo”, conta Robson Souza Veloso, de 17 anos, que há mais de dez anos brinca de pegar doces na frente da igreja. Mesmo correndo o risco de se machucar com a violência da brincadeira, ele está mais preocupado em quebrar seu recorde. “Quero encher mais de duas mochilas de queimado este ano”, diz. Segundo ele, o que ele os amigos não conseguir chupar será vendido na rua onde mora.

De acordo com Jorge Antônio Lopes, um dos seguranças da igreja, o tumulto causado pelos meninos se repete há muitos anos. “Sempre tem briga”, conta. Para ele é algo que destoa do sentido da festa. “Tem deles que trazem até facas dentro das mochilas”, acrescenta.

Com a mochila vazia, Daniel Macedo, de oito anos, parecia estar começando a brincar naquele instante. “Que nada, fui esvaziar a mochila e quero encher ela de novo”, explicou. Apesar de pequeno, em comparação à maioria dos que disputam os queimados, ele não demonstra ter medo e mostra a marca no joelho adquirida na brincadeira. “Tem hora que até a polícia tem que apartar”, conta.

Deise Barbara Silva, a mulher que se machucou com a agressividade da brincadeira, diz que frequenta sempre à igreja nos dias de Cosme Damião e que adora a festa, mas discorda da maneira como a brincadeira dos doces vem se tornando nos últimos anos. “É um absurdo, é muito violento, isso não é mais brincadeira”, aponta.

Com a filha de quatro anos no colo, que chora devido ao choque do assalto ao saco de balas, Deise Barbara Silva ressalta que nem mesmo o ocorrido tira a beleza do dia, que é mais especial para ela do que muitos outros fiéis. “É o meu aniversário, e quero é agradecer a graça que alcancei”, disse. E é justamente pela graça alcançada, que este ano ela não vai oferecer o caruru à Cosme e Damião. “Estava desempregada há dois anos e meio e há uma semana eles me conseguiram um emprego de manicure, e por isso não tive tempo para preparar o caruru”, explicou.

Jorge Antônio Lopes, segurança da igreja há mais de 10 anos, faz o trabalho de defender os fiéis da determinação dos meninos em busca de queimados com muito prazer. “É uma forma de retribuir”, revela. Alcoólatra por mais quase 30 anos, foi através da fé em Cosme e Damião que ele conseguiu deixar o vício, dez anos atrás.
 

SIGA A TRIBUNA
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
CAPA DE HOJE
PUBLICIDADE