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Brasil

Renan Calheiros: 'Brutus' de peixeira no Senado

Vitor Hugo Soares é jornalista

Publicada em 08/04/2017 07:02:03

Publicada na edição de quarta-feira do jornal “O Liberal”, de Goiás, a charge política de Jorge Braga pode até não ser considerada uma obra prima por críticos mais rigorosos (e pelos petistas que detestam o moicano do cartunismo de Goiânia).

Ainda assim, é um desenho digno de se tirar o chapéu nas redações e mesas do jornalismo gráfico brasileiro, de tantos representantes geniais desde a revista “O Malho”.

Traço de mestre que conhece de sobra o seu polêmico e sempre arriscado metier, rico no significado simbólico da crítica de contundente bom humor, o cartunista focaliza o jogo camaleônico do ex-presidente do Senado, Renan Calheiros, ao eleger como seu principal adversário e saco de pancadas o governo de Michel Temer: o companheiro de partido no PMDB, e até recentemente, “velho e querido amigo”, na rasgação de seda do começo do mando no Palácio do Planalto.

Nas últimas semanas, (por motivos verdadeiros ainda submersos ou escamoteados, como é da prática do agressor), transformado no novo inimigo a ser destroçado e destronado.

Sei que é jornalisticamente complicado – e chato, muitas vezes – traduzir em palavras escritas, toda a carga de detalhes, informações, conteúdo crítico – além do poder de fazer sorrir e refletir ao mesmo tempo -, de uma boa  charge.

Faço isso, algumas vezes, para contextualizar e dar sentido à narrativa dos fatos e da conjuntura política analisados neste artigo, sobre o tempo e alguns homens desta fase temerária (mas estimulante e referencial sob vários aspectos), que o País atravessa. Ao mesmo tempo, também, para facilitar o entendimento ao leitor que não teve acesso à charge de J. Braga.

O desenho, no Diário de Goiânia, mostra os dois personagens principais vestidos em seus respectivos trajes habituais. O terno, camisa de colarinho branco e gravata dos embates de Brasília. O mandatário da vez, Michel Temer, aparece com uma peixeira enterrada nas costas. Cambaleante, ele encara, surpreso, a figura à sua frente e exclama: “Até tu, Renan?”.

Isso apenas, já seria suficiente para o impacto irônico que leva o sorriso ao rosto de quem observa o desenho. Expressividade e atualidade da mensagem poderosa e instantânea, inspirada na obra teatral (consagrada e imortalizada também no cinema) de William Sheakspeare, que remete ao Século I A.C., na cena antológica em que o imperador romano Julio Cesar é vítima de uma conspiração de senadores para tirá-lo do cargo.

Entre os membros da tramoia traiçoeira, o imperador identifica o seu filho adotivo Marcus Brutus.
Observando mais atentamente é possível ler, no cabo da peixeira, a frase “Fora Temer”. Preciosa cereja do bolo “servido” pelo artista aos leitores do diário da capital goiana, cidade quase colada à Brasília: o centro cada dia mais nervoso e explosivo do poder político nacional, onde Renan tem deitado e rolado, ultimamente, sabe-se lá confiado em que ou em quem.

Mais provavelmente – arrisco a opinião- , na sua notória capacidade de mudar de pele, de cor e de comportamento, para servir e não raramente colher fartos e nem sempre bem explicados benefícios, (como demonstra, agora, sua encalacrada situação investigada pela Lava Jato) de quem quer que seja o dono do poder da vez. Assim tem sido desde o histriônico e desastroso governo do “caçador de marajás”, Fernando Collor de Mello.

Sob este ponto de vista é um achado, também no âmbito da imprensa, a reportagem sobre o affair Renan-Temer, publicada na edição brasileira do jornal espanhol El Pais, esta semana, às vésperas da comemoração do Dia do Jornalista, nesta sexta-feira, 7 de abril, em que escrevo este artigo.

A começar pelo título: “O camaleão Renan Calheiros: a nova pedra no sapato de Temer”. O texto, assinado pelo repórter Afonso Benites, é primoroso desde a abertura. Quando afirma: “Renan Calheiros é o tipo do político que não dá ponto sem nó”. Na mosca!.
Na busca de fatos ou razões (próximas ou distantes) que possam explicar a artilharia pesada do ex-presidente do Senado, e atual líder do PMDB na Casa, contra o Palácio do Planalto (“com quem o chefe político de Alagoas demonstrava estar em sintonia até há alguns dias), a reportagem fala sobre a disputa por mais cargos no governo federal e, principalmente, apresenta o cenário eleitoral difícil e cavernoso para o senador, que tende a se complicar ainda mais até as eleições de 2018.  

Benites aponta, ainda, para quatro fatos que pesam sobre Renan: “Ele é réu no Supremo Tribunal Federal, por desvio de dinheiro público. É investigado na Operação Lava Jato, articulou para manter os direito políticos de Dilma Rousseff (PT) no processo de impeachment e é aliado do governo impopular de Michel Temer”, anota. “A alternativa para dar a volta por cima seria, neste momento, tentar fazer o único movimento que ele poderia, que é se desvincular da gestão Temer.

Nem que para isso seja necessário que o peemedebista camaleônico volte a se aproximar do ex-presidente Lula, um nome ainda forte no eleitorado nordestino e alagoano”.
Mais não digo, mas recomendo a leitura completa da reportagem do El Pais. Da minha parte, acho que tem mais caroço escondido debaixo desse angu.

Muito mais. Mas também não digo, até porque ainda não sei um terço do rosário de certeza certa, como se diz na beira do São Francisco, o rio da minha aldeia, que desemboca em Alagoas e também guarda muitos segredos. Revele quem souber.

 

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