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Joaci Góes

Todo poder corrompe

Publicada em 20/04/2017 08:40:29

Luiz Roberto Barroso, ministro do STF, acaba de publicar um pequeno ensaio, A ética e o jeitinho brasileiro, revelador do embrião da corrupção que culminou por tomar conta do País quase inteiro, como estamos encharcados de ver, através de todas as mídias, nacionais e estrangeiras. O leitor das terras de Pindorama tem tudo para se sentir como peixe dentro d’água, de tal modo os lances de verdade que o texto de Barroso contém parecem falar de si mesmo, de sua família e dos seus amigos.

O povo brasileiro é mais honesto no discurso do que nas ações. Pessoas decentes acham natural a prática de pequenos delitos, como dar propina para obter privilégios, como ser mais bem servidas em recepções particulares; dar e receber atestados licenciosos, inclusive médicos; atestar a presença de colegas ausentes no serviço público, como é desgraçadamente frequente nas áreas sensíveis da educação e da saúde, e por aí vai. Sem falar no famoso e decisivo QI (quem indica), prática que entroniza o valor do pistolão, em prejuízo suicida de critérios meritocráticos, sem os quais a corrupção viceja e o desenvolvimento estiola, como estamos assistindo.

De nada nos valerá a reiteração da crença de que esse viés para resolver as coisas de modo enviesado resulta de nossa patrimonialista herança colonial de misturar o público com o privado. Hoje, queiramos ou não, o Brasil se encontra imerso numa sociedade global, cuja competitividade, entre as nações, é mensurada e decidida pelos diferentes graus de conhecimento incorporado, elemento fundamental na competição de mercado para os bens oriundos da terra, da indústria de transformação e dos serviços, área cuja liderança, com muitos corpos à frente, é exercida pela tecnologia da informação. 

Quem trabalhou com ou conheceu de perto, como eu, o velho Norberto, fundador do Grupo Odebrecht, concorda na conclusão de que ele morreu na hora certa, em julho de 2014, tendo sido poupado do inominável vexame de ver o seu Império e seu nome naufragarem, de modo irremissível, na lama da mais desenfreada corrupção da história dos povos.  

Os tão proclamados e festejados princípios éticos vigentes na origem do grupo foram abandonados pela eficácia que reclamava autonomia gerencial para cada centro de resultado, cujo titular dispunha de liberdade de ação para fazer o que mais lhe parecesse conveniente para maximizar os lucros. A capacidade de corromper servidores públicos resistentes a aditivos generosos, rapidamente, passou a ser o critério mais importante na avaliação dos executivos, dezenas dos quais desfilaram de modo eloquente suas delações, sob o guante das forças policiais, do Ministério Público e do Judiciário. Depois da corrupção dos funcionários médios, vieram os diretores das estatais, deputados, senadores, prefeitos, governadores, ministros e presidentes.

O céu passou a ser o limite. No meio da marcha desenfreada, um envolvimento, sem precedentes, de figuras do Judiciário, conquista que agregou a conveniência de poder lesar parceiros e sócios, como se vê da pletora de ações em diferentes tribunais brasileiros, inclusive na Bahia, onde quando não era possível vencer, o Grupo Odebrecht conquistava retardos monumentais, meio apto a forçar seus credores a aceitar acordos na bacia das almas. Só Deus sabe o que será revelado se vier à luz o propinoduto de personalidades do Judiciário.

Por ignorância ou má-fé, há quem ache que a operação Lava Jato deveria ser interrompida para evitar a débâcle de conglomerados que empregam tanta gente. Essas pessoas ignoram que a formação desses monopólios custou a interrupção de centenas de empresas de pequeno e médio portes, Bahia e Brasil afora, praticantes de engenharia de reconhecida qualidade, e empregadoras de milhares de pessoas, totalizando número superior ao das organizações monopolistas, ora denunciadas, como aconteceu na Bahia, nos últimos trinta anos, onde deixaram de operar, reduziram significativamente os seus tamanhos ou mudaram de atividade empresas como Bahia Construtora, ESP, CEPEL, Soares Leone, Cunha Guedes, Rodotec, ENGREL, Sérvia, Empate, Góes-Cohabita, Pavtest, Concic, Sociedade Construtora Baiana, Ebisa, Setel, Limoeiro, Tecel, Viriato Cardoso, Terrabrás. 

Em meados dos anos 80, o conhecido construtor, Alfredo Castro, dono da Empate, confidenciou a amigos: “a minha Empresa está muito bem econômica e financeiramente. Mas vou fechá-la. Vou despedir o pessoal e vender os equipamentos abaixo dos preços de mercado, porque quero vender rapidamente”. Diante da surpresa geral, ele explicou: “estou sentindo que o nosso mercado está sendo direcionado a partir de Brasília, de onde as obras já vêm carimbadas e eu não sei fazer isso.” Na ocasião, ele se referia, sobretudo, à OAS. Seu acervo de máquinas e equipamentos foi vendido em pouco tempo, a preços irrecusáveis.

Parafraseando o preceito bíblico segundo o qual não vale a pena ganhar todo o ouro do mundo e perder o reino dos céus, a via crucis que padecem os donos da Odebrecht evoca uma reflexão laica de semelhante significado: “de que vale ganhar todo o ouro do mundo se se perde a paz, a liberdade e a honra”.

Tem razão Lord Acton: Todo poder tende a corromper, e o poder absoluto a corromper, absolutamente. 

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