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domingo, 28 de maio de 2017
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Paulo Roberto Sampaio

E os velhos meliantes perderam seu status

Publicada em 16/05/2017 07:12:47

Durante anos, povoou a minha mente a imagem de Ronald Biggs, o lendário assaltante do trem pagador na Inglaterra. Fizera o assalto perfeito. Eu o imaginava a cavalo, acompanhando a locomotiva, até pular no trem para a pilhagem, fugindo com sacos de dinheiro nas costas. 

Exatamente como nos filmes de faroeste, que imortalizaram o lendário John Wayne. Adiante, a história mostra que não foi bem assim, mas pouco importa.

Depois, meus olhos passaram a mirar o cara de pau do Paulo Maluf. Dele falava-se tudo, provava-se muito, mas ele seguia todo serelepe, como se nenhuma traquinagem estivesse fazendo ou tivesse feito. 

Ganhou até uma alcunha, coisa de brasileiro, que parece louvar o crime: rouba, mas faz.

Assim era Maluf, hoje para mim rebaixado à condição de trombadinha. De batedor de carteira desses que ficam vagando pelas estações de trem ou ônibus, apinhadas de gente pelo mundo afora, para, com mãos hábeis, levar a carteira do incauto, adormecida no bolso traseiro. Nem retrato, para mim, ele merece na honrosa galeria dos maiores ladrões do Brasil.

E tudo isso porque fui descobrindo que a corrupção é uma questão endêmica neste país e teve um surto devastador nos últimos 15 anos. Foi como um vírus que se fortalece, dribla todas as vacinas ou é reforçado pelas condições ambientes.

Fizeram campanha para tudo. Para vacinar contra a dengue, contra a gripe, a zica, a chikungunya, febre amarela, só não fizeram contra a corrupção, a roubalheira desenfreada. Talvez por não ter jeito mesmo. 

Não conseguiram uma vacina eficaz. É que por sofrer tantas mutações nas formas de gatunar, tamanha a sagacidade dos meliantes, a vacina de hoje já não serviria para amanhã.

Não identifico um ou dois culpados, mas um sistema que apodreceu e foi carcomido pela ferrugem da certeza da impunidade. 
Ladrões bem-sucedidos acabam idolatrados. São mestres na sua arte de gatunar. Arte escusa e condenável, mas que alimenta sonhos.
Impressionante é que esse tipo de rapinagem acontece sem o uso de armas e, no final, amealha fortunas. A tecnologia está aí para isso.
Com a revolução tecnológica, chegou-se ao sistema atual, onde uma pessoa cria conta falsa em um provedor gratuito e, assim como os espiões dos tempos da guerra fria, pode combinar o golpe sem que ninguém tenha como monitorar.

O e-mail sequer é disparado, as duas partes têm uma mesma senha e as mensagens ficam arquivadas como rascunho. Como não foram disparadas, não há registro nem chances de serem interceptadas. Dizem que nem a inteligência da CIA tem como resolver essa.
Era assim que, segundo ela mesma, Monica Moura, a marqueteira e mulher do marqueteiro João Santana, recebia as orientações do que fazer, como agir, a quem pagar. 

E acabou ganhando missões prosaicas, segundo ela, como pagar o cabeleireiro da madame, mesmo após a campanha. Com dinheiro sabe-se lá vindo de onde.

Agora que a roubalheira está escancarada, embora todos neguem, espera-se que o país desperte para esse modelo abominável de fazer política. 

Que não se queira culpar e condenar apenas A ou B pelo que está aí, até porque todos, indistintamente, se locupletavam de um modelo sujo e que sangrava os cofres públicos.

E que nasça deste trágico episódio de roubalheira institucionalizada, na consciência de cada brasileiro, em especial dos seus políticos, uma responsabilidade maior com o bem público.

Por consciência ou medo, afinal, espera-se que o Brasil jamais venha a ser o que foi nesses longos e tristes anos de pilhagem e safadeza. 

E que a Justiça seja célere o bastante para não deixar que os casos caiam no esquecimento ou os processos acabem dormindo em profundas gavetas.

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