Estadistas e populistas

Joaci Góes


Tribuna da Bahia, Salvador
27/07/2017 14:46

   

“O político pensa na próxima eleição; o estadista na próxima geração”.

A frase famosa é do teólogo e pensador norte-americano James Freeman Clarke (1810-1888), frequentemente atribuída ao estadista inglês Winston Churchill que a repetiu em ocasiões solenes. Para ficar em inteira sintonia com o pensamento atual, basta substituir a palavra político, da formulação original de J. F. Clarke, por populista, conceito moderno. Saberemos, então, porque os estadistas são a bênção dos povos e os populistas a desgraça que tem impedido que nações promissoras, como Argentina, Brasil e Venezuela, se realizem consoante suas enormes possibilidades.

Estadistas e populistas, ambas as categorias são integradas por políticos, os primeiros com P maiúsculo e os últimos com minúsculo.  Os primeiros atuam sobre a força das pessoas e seus valores mais profundos, consoante os grandes modelos históricos da Grécia e de Roma, e, mais modernamente, de nações vitoriosas, a exemplo das que integram o Primeiro Mundo, onde a qualidade da educação – conhecimento e valores -, como a força motriz de sua prosperidade figura como a primeira das prioridades. Os últimos, os populistas, atuam sobre as fraquezas das massas e seus apetites mais primários, traduzidos na expressão “pão e circo” como sua motivação maior, porque a força motriz que os mobiliza é a conquista do poder pelo poder. Os populistas não vacilam em tripudiar, em benefício próprio, sobre a candidez algo infantil das massas incultas, capazes de preterir Jesus em favor do ladrão. Como Pilatos, os populistas lavam as mãos e se empanturram de pão, vinho e de todas as regalias. Conhecemos este filme. O povo que se lasque.

Enquanto a Inglaterra enfrentou, solitária, os massivos blitzkriegs nazistas, depois da queda de toda a Europa Continental perante a avassaladora máquina bélica de Hitler, e o grande líder, Winston Churchill, oferecia ao seu povo, como recompensa pela heroica resistência, apenas, suor, lágrimas e sangue, os populistas latino-americanos têm infelicitado os seus povos, prometendo-lhes a ilusão do céu na terra e desvinculando as conquistas populares da exigência do mérito que lhes é inerente, como fizeram, no pós guerra, nações como Japão, Alemanha, Noruega e Finlândia. Por isso, nos governos petistas, enquanto a receita fiscal crescia em progressão aritmética, as despesas subiam em progressão geométrica, sob os aplausos da população mesmerizada. O resultado não poderia ser outro: o Brasil salvo pelo impeachment de Dilma de transformar-se na Venezuela de Chaves e Maduro em que o lulopetismo queria nos lançar, como acaba de anunciar a presidente do Partido dos Trabalhadores, uma senadora alucinada que exprime o pensamento de uma corrente política declinante como um iceberg diante da luz solar e que é habitado, com raras exceções, por seguidores desinformados ou espertalhões. A presidente do PT, que deverá ser presa, por assalto ao Erário, tão logo conclua o seu mandato, para o qual não se reelegerá, segundo recentes pesquisas de opinião, evoca um dos títulos mais populares do notável iconoclasta pernambucano Nelson Rodrigues, Bonitinha, mas ordinária. No caso dela, o marido lhe fará companhia, no presídio ao lado.

Estadistas e populistas trabalham para ganhar eleições. Os populistas, de qualquer modo. Os estadistas, respeitados limites da ética, traduzidos no atendimento a deveres mínimos de consciência. Os populistas identificam as aspirações populares e prometem satisfazê-las, sem preocupações sobre a consistência dos meios, como é próprio do processo infantil das massas incultas, a que o Professor Augusto Alexandre Machado denominava patuleia ignara. Os estadistas, ao revés, enfrentam o risco do desgaste de discutir os meios válidos para alcançar os objetivos de promoção social, porque não abrem mão do caráter pedagógico de sua missão.

Tomemos um exemplo: os populistas defendem a lei das cotas para permitir o acesso de negros a cursos universitários, em prejuízo de critérios meritocráticos. O estadista financia o curso universitário a todos, através de recursos eventualmente inativos, como os do FGTS e outros, com aval do Estado. Cada qual cursará a escola onde for aprovado, e será financiado pelo valor total da anuidade por ela cobrada, inclusive a da universidade pública, a mais cara do Mundo, da ordem de R$42.000,00 (Quarenta e dois mil reais anuais, em média), quando abundam bons cursos privados com custos entre cinco e dez mil reais anuais. O pagamento seria feito no dobro do tempo de duração do curso, com dois anos de carência, com abatimento para quem quisesse/pudesse adiantar o pagamento. Centros de pesquisa avançada, construídos pelo Estado, receberiam os verdadeiramente vocacionados para os desafios da Ciência. Recorde-se que no sistema universitário americano, o mais avançado do mundo, nada menos do que 80% da produção científica é realizado por apenas 6% das universidades, algo ainda mais impressionante do que a Lei dos 20% produzindo 80% dos resultados, do italiano Vilfredo Pareto. O aumento da produtividade do sistema econômico nacional cobriria, à larga, os custos incorridos pela União, decorrentes da eventual inadimplência de parte do alunado.

Produto da influência do marxismo cultural, a universidade pública brasileira, a mais cara do Globo, não consegue que uma sequer de suas unidades tenha assento permanente entre as 200 melhores do Mundo. É preciso dizer mais do atraso de nossas esquerdas?

Essa simples equação, porém, parece ser muito difícil de entender por quem tem todo interesse em manter na obscuridade o maior percentual da população, através de mecanismos criminosos como a completa idiotização dos meninos da antiga UNE, hoje transformada em UEA-União dos Estudantes Analfabetos.

Entre os mais destacados membros da esquerda nacional, identifico antigos e queridos amigos. Deus não há de permitir que eu feche os olhos sem ver o milagre da cura de alguns deles, honrados fundamentalistas que oferecem suas ricas biografias em holocausto das ambições de alguns dos mais togados bandidos da política brasileira de todos os tempos.


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