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Ano eleitoral: espetáculo de “picadeiro”


  * Consuelo Pondé de Sena é presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e membro da Academia de Letras da Bahia. consueloponde@terra.com.br


   Não costumo tratar de assuntos políticos, mas pode parecer estranho que, nem uma só vez, comente o momentoso tema. O silêncio diante da conjuntura brasileira pode sugerir alienação, o que não corresponde à minha condição de patriota interessada nos destinos do Brasil. Muito menos, tal omissão, justifica a minha postura pessoal diante da vida. Sou de assumir posição, tomar partido, aliar-me. Hoje, no entanto, tenho me limitado a assistir, de camarote, ao espetáculo de “picadeiro”, em que se transformou a cena política brasileira.
   Afora isso, como a maior parte das pessoas da minha geração, talvez até da maior parte dos meus compatriotas, experimento grande desencanto pessoal em face dos rumos da nossa nação. Aliás, a análise fria e descompromissada de quem estuda história, de quem analisa a trajetória do Brasil, ao longo do tempo, só conduz ao desencanto e à descrença.
   Não temos líderes capazes de “entusiasmar” o povo, de neles confiar sem restrições, tal como ocorria no passado. Para grande espanto, assisto, pela TV, manifestações calorosas em favor da eleição de Barack Obama, o que revela que aquele país mudou.
   Não perco meu tempo em assistir determinados programas políticos, obrigatórios todos eles, e insuportáveis. Comparecer às praças para escutar postulantes aos mais diversos cargos eletivos é um “filme” do passado.
   Reduz-se, por isso mesmo, a uma vaga evocação do tempo de criança, quando ingenuamente confiava na integridade dos políticos. Quando garota, inocentemente pedia a meu pai para que me levasse à Praça da Sé, a fim de escutar a “arenga dos salvadores da Pátria”. E ele, coitado, apesar da vida dura de médico que, àquela época, não possuía automóvel, não se importava de atender aos meus pedidos. Acredito que gostava do “exercício”.
   Hoje, experiente, madura, “calejada” e vencida nos anos, não me interessa participar da eleição de quem quer que seja. Quando muito, me limito a comparecer à sessão eleitoral em que meu nome está inscrito como eleitora, sem que a lei não me obrigue mais a votar.
   A “crueza dos acontecimentos”, a repetição de velhos esquemas e parcerias, a corrupção desenfreada, a impunidade e os expedientes ilícitos retiraram da cena brasileira o que ainda restava de patriotismo e confiança. Mesmo porque, já se foi o tempo em que se acreditava em discursos de “ocasião” e promessas de candidatos.
   Infelizmente vivemos num país onde os espaços de negociação converteram-se em balcões de “rapinagem”. Somos parte de uma nação na qual políticos, confessada-mente desonestos, obtêm expressivas votações, o que se configura no apoio dado pelo povo aos corruptos, mensa-leiros, sanguessugas, além de outros de igual “extrato”, que vivem da exploração e da ingenuidade popular.
   Já me desencantei um sem número de vezes. Já me decepcionei com inúmeros políticos. Não mais confio nos bons propósitos daqueles que, sem qualquer experiência, sem preparo para exercer as funções a que postulam, sem dispor de mensagem convincente, buscam e obtêm a consagração popular, simplesmente para arrumar ou melhorar a sua vida e de sua parentela.
   Como interpretar a última eleição geral com os votos assegurados a Paulo Malluf, em São Paulo, a Fernando Collor de Mello, em Alagoas, ao trêfego Clodovil, também no mais importante Estado da Federação?
   Recuso-me a ser telespec-tador passivo de pronunciamentos de candidatos despre-parados e inexperientes. Não me permito mais escutar a conversa vazia arenga dos pretensiosos, arrogantes, dos que se julgam capazes de aliciar pessoas esclarecidas com discursos desconectados, cheios de chavões.
   O pior é quando não se resolve a pendenga no primeiro turno. Caminha-se para um segundo, mais agressivo e desagradável. Não dá para permanecer diante de um televisor para assistir tanta bobagem. Muito menos, ter disposição para voltar à sessão eleitoral.


  


  


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