Avenidas de vale mudaram a cara da cidade
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Quem chegava de ônibus em Salvador, em 1969, desembarcava na Sete Portas, exatamente onde hoje é a Cesta do Povo era a Rodoviária, e o roteiro de compras para as senhoras na Loja Sloper (compras de bijouterias, bolsas, cintos e roupas femininas) , da Rua Chile, ao lado da Praça Castro Alves, ou na Avenida Sete.
E, se quisesse ir para a orla, não tinha a opção da Avenida Bonocô ( Avenida Mário Leal Ferreira), pois nestas alturas nem o primeiro shopping existia, o Iguatemi.
No Bonocô era tudo mato e tinha uma horta com algumas construções humildes e foi projetado através do decreto de 3.343, de 03/04/68 que declarou a via de utilidade pública e desapropriou os imóveis situados no Vale do Bonocô para construção da avenida que só foi inaugurada em 1970.
Estas inovações ocorreram durante a administração de Antônio Carlos Magalhães, quando a capital baiana passou pela maior revolução urbana de sua história. ACM colocou em prática o ousado Plano Diretor da cidade, projeto do engenheiro Mário Leal Ferreira, tido como a solução para o desenvolvimento de Salvador e considerado antes, impossível de ser realizado.
Este projeto previa o uso dos vales para expandir a cidade. Salvador se transformou num imenso canteiro de obras. O então prefeito mandou construir ruas e avenidas, como Garibaldi, Cardeal da Silva, Bonocô, Vale do Canela, Vasco da Gama, Paralela. Ao todo 10 avenidas de vale e 15 viadutos de grande porte.
A proposta de trabalho previa um sistema integrado, no qual se articulassem duas redes de avenidas– uma para o tráfego mais lento, de acesso aos bairros, e que seria implantada nas partes mais altas, interligadas por viadutos, e outra, a ser construída nos vales, através de avenidas.
Exemplos deste tipo de avenida são a do Vale do Canela e a da Avenida Centenário. Estas avenidas de vale teriam como o objetivo de proteger a zona residencial dos ruídos, poeiras, gases de combustão dos automóveis e acidentes.
A lembrança do matagal e as hortas que envolviam também o centro da cidade são narradas pelo comerciante Antônio Souza de Almeida, 65 anos, dono da banca de revistas e Jornais localizada na sinaleira da Avenida Dom João VI, em Brotas. “Era tudo mato e brejo ali no Bonocô e não só ali como em vários pontos da cidade como o Vale de Nazaré que não existia e sim uma horta”.
Almeida explicou que para se chegar no Aquidabã hoje se tem vários caminhos para quem está em Brotas ou na orla, mas antes teria que ir pelos Bandeirantes, Matatu e Sete Portas. Ele acrescentou que muita gente não entende o porquê destes bairros serem todos Brotas. “Era uma coisa só, quando fizeram a Avenida Bonocô, dividiu tudo”.
O comerciante atribui toda a evolução de Salvador ao ex-senador Antônio Carlos Magalhães, falecido em julho de 2007. Saudosista, ele afirma que “muitos não lembram, não reconhecem e não acreditam, mas a Bahia só cresceu depois de ACM”.
O nome oficial da avenida é uma homenagem ao idealizador do projeto de modernismo da cidade, que faleceu antes do sonho se tornar realidade, o engenheiro Mário Leal Ferreira. Já o nome Bonocô, de acordo com o professor Waldeloir Rêgo é explicado no livro Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia.
Conta o escritor que havia uma baixada (Baixa do Bonocô) que era uma pequena área de cultos afro, onde surgiu o nome que serve como batismo a todo esse vale (Vale do Bonocô).
Saudade da Montanha e do Pelourinho
A Ladeira da Montanha, construída como Rua Barão Homem de Mello, em 1881, hoje se encontra totalmente abandonada, degradada. Quem passa por ali agora, nem imagina que já foi palco de gerações passadas viverem noites inesquecíveis nas boates que se situavam no local, em pleno final da década de 60.
“Quando leio na história o que foi esta ladeira e quando vejo agora ao passar de ônibus pelo local fico triste por saber que nenhum governante se preocupa com as condições da ladeira.
Antes local de glamour e boemia, hoje o que se vê são homens se banhando na fonte e mulheres catando piolhos de crianças desnutridas”, afirmou a estudante de História Catarina Mendes, 26 anos.
A estudante entende que a época é outra, mas poderia ser aproveitado culturalmente o espaço, sem a decadência gritante que está sendo vivida pelos moradores do local, que ainda conservam prostíbulos degradantes.
“Acho que só vão tomar providência quando estas casas ruírem como já aconteceu no passado”, exclamou.
Maria Souza, 51 anos, ainda reluta gerenciando uma casa de encontros e afirma que ainda tem homens que procuram “as meninas”, embora lamente que não seja como antes, há 30 anos atrás quando o local era freqüentado pelos “rapazes da cidade”, boêmios, políticos, artistas intelectuais, funcionários públicos de alto escalão e militares.
O Centro Histórico de Salvador foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco no ano de 1985. Abrange a Praça Castro Alves até Santo Antônio Além do Carmo, considerado o maior conjunto colonial da América Latina e está dividido em três zonas, o Pelourinho, o Largo do Carmo e a que se estende desde a Praça Municipal até o Largo de São Francisco, todas elas repletas de edifícios e monumentos construídos entre o século XVI e XIX.
O Pelourinho que hoje vive um dos momentos mais críticos, antes era um bairro popular, mas em 1990 aconteceu a recuperação do bairro, executada pelo Governo do Estado.
Muitas famílias foram indenizadas para dar lugar a um espaço de entretenimento cultural. Hoje o bairro ainda sofre com problemas de mendicância, menores drogados que perambulam pelas ruas pedindo dinheiro e espantam os turistas do local tal o quadro desolador que se apresenta.
Para o comerciante Clarindo Silva, dono da “Cantina da Lua”, um dos pontos mais antigos do Pelourinho, não se trata de falta de policiamento, mas uma ação social deve ser desencadeada “é preciso uma ação para a situação destes meninos, o Conselho Tutelar joga para o Juizado e vice-versa.
O bancário Edmundo Sacramento, 54 anos, freqüentador assíduo do Pelourinho lamenta o estado em que se encontra o bairro e relembra os tempos de moleque que saía um bloco de Carnaval de crianças capitaneado pelo conhecido Tio Isidro.
“Tempos bons aqueles, imagina que naquela época o Pelourinho não era tão degradado como está hoje com toda a infra-estrutura. Era um bairro alegre com sua boemia e ainda tinha atração para os guris como este bloco que saía da Ladeira do Pelô em direção à Castro
Alves”, recordou.
Agricultura familiar resgata cidadania
“Qualquer ação que pretenda melhorar os índices de desenvolvimento humano e a qualidade de vida na área rural deve envolver a agricultura, com iniciativas que elevem os padrões de produção e melhorem a renda, sobretudo do pequeno agricultor”, a declaração feita pelo secretário da Agricultura do Estado da Bahia, Geraldo Simões, no primeiro ano do governo Jacques Wagner, tem sido uma espécie de primeiro mandamento de uma bíblia agrícola na qual rezam os produtores beneficiados com programas de integração, a exemplo do Programa Terra de Valor, coordenado pela Secretaria da Integração Regional com a participação de outras secretarias, inclusive da Agricultura, que tem como objetivo elevar o IDH ( Índice de Desenvolvimento Humano) de 34 municípios do semi-árido baiano.
Ao longo do ano, a Seagri e a Secretaria da Indústria e Comércio trabalham integradas com foco na comercialização final dos produtos da agricultura familiar na rede da Cesta do Povo. A estratégia tem dado bons resultados beneficiando agricultores da vasta região do semi-árido, que consta de 257 municípios, eleita como uma das prioritárias pela esfera governamental. Programas e ações estão sendo tocados, alguns juntos ao governo federal, como o que proporciona a retomada das obras de implantação dos projetos de irrigação do Salitre e Baixo Irecê. Ambos permitirão a irrigação de 90 mil hectares de lavouras diversificadas que, conforme Geraldo Simões, “quando em produção, mudarão a face da boa parte do nosso semi-árido”.
Enquanto isto, o programa de produção de biodiesel avança promovendo a inclusão de milhares de pequenos produtores de oleaginosas, em especial a mamona, em muitas áreas desta extensa região. Por outro lado, uma atuação firme do governo estadual está permitindo a recuperação da cultura algodoeira do sudoeste, praticada basicamente por pequenos agricultores. Também a aposta em programas como o Sertão Produtivo alcança metas de aperfeiçoamento dos sistemas produtivos, que verticalizam-se e passam a integrar o mercado. A ovino-caprino cultura, a apicultura, fruticultura, sisal, mandioca e as oleaginosas para a produção do biodiesel, são algumas das culturas beneficiadas.
“A recuperação da economia da região cacaueira é outra prioridade do atual governo”, costuma dizer o secretário Geraldo Simões. A produção baiana de cacau, que beirou as 400 mil toneladas no final dos anos 80, caiu para 143 mil toneladas no registro da safra de 2005/2006, fato que provocou uma onda de reflexos desastrosos para o sul da Bahia, região que conta com o apoio das autoridades estaduais para se recuperar economicamente, a partir de um novo ciclo que experimenta a técnica da clonagem na renovação dos cacauais. Investimentos da ordem de R$2,4 bilhões provenientes do chamado PAC do Cacau, farão duplicar a atual produção do fruto do chocolate. Na esteira do desenvolvimento da produção do
cacau, outras culturas se beneficiam, a exemplo do dendê, banana, maracujá, mamão, cupua-çu e das flores.
A capacitação de mão-de-obra, o associativismo, o cooperativismo e a agricultura familiar atuam neste contexto diversificado com resultados
favoráveis à economia estadual. (Por Nelson Rocha)