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O atropelo e o futuro
Na semana passada, escrevi aqui, de passagem e sem maiores pretensões, que alguma coisa (já não importa o que) “seria burrice e o PT não faz burrice – só quando deixam”.
Ontem à noite li no site Política Livre a notícia de que, em reunião prevista para sábado, o diretório estadual do PT vai “avaliar formalmente a possibilidade” de o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, do PMDB e que detém o comando político da seção estadual deste partido, ser candidato a governador em 2010, tornando-se assim um concorrente do governador Jaques Wagner, que pretende disputar a reeleição.
A notícia vai mais adiante, dando conta de que, no encontro, as correntes “mais radicais” petistas “devem sugerir que o partido exija do governador Jaques Wagner o rompimento político com o grupo do ministro, demitindo todos os titulares dos cargos indicados pelo PMDB”, entre os quais se incluem dois secretários de Estado – Batista Neves (Infra-Estrutura) e Rafael Amoedo (Indústria e Comércio). Só estaria mesmo faltando as correntes “mais radicais” do PT sugerirem a exoneração do vice-governador Edmundo Pereira, mas isso não pode.
Na estranha e quase espetacular notícia, o mencionado site ressalva que, apesar de a irritação com o ministro “ter chegado à estratosfera a partir da eleição municipal passada”, nem todas as correntes petistas vêem no fato de Geddel ter “admitido que é candidato ao governo em 2010 contra o governador Jaques Wagner” – creio que o ministro do PMDB admitiu que há um movimento em favor de sua candidatura a governador e que não a descarta, mas ressalvou que entre isto e por uma candidatura na rua há uma diferença – motivo suficiente para afastá-lo do governo, jogando-o na oposição (na Bahia), principalmente num cenário em que não é possível prever se o presidente Lula teria disposição para afastá-lo do ministério da Integração Nacional, correndo o risco de causar um grande estrago nas suas relações com o PMDB no Congresso”.
Bem, desconfio que as correntes petistas que eu, até para fazer o contraste, designarei de “menos radicais”, não vão deixar o PT fazer a burrice. E, como já lembrei, o PT não faz burrice – só quando deixam. Não creio que, neste momento, deixem. As correntes “menos radicais” deverão se opor à anunciada proposta das correntes “mais radicais” e, evidentemente, a decisão está mesmo é com o governador Jaques Wagner. É que, embora ele seja do PT, o governador é ele, não é o PT nem suas correntes “mais radicais” e nem mesmo as outras. E os cargos são do governo, não do PT. E o governo é do governador, se não levarmos a discussão para o patamar mais elevado de que, na democracia, “o governo é do povo, pelo povo e para o povo”, o que não parece necessário aqui.
O governador, estou convencido disso pelo seu comportamento político até o momento, “tem lado”, como costuma dizer, mas não tem o hábito da ação precipitada, extemporânea. Outubro de 2010 não é março de 2009. Assim, há que ver com calma tanto o cenário político-eleitoral nacional quanto o estadual, ambos em plena ebulição, mas sem algumas definições essenciais.
Quem vai ser o candidato a vice-presidente na chapa liderada pelo PT para a sucessão de Lula? Geddel Vieira Lima, Michel Temer ou outro? Existe absoluta certeza de que o candidato governista a vice seja mesmo do PMDB, como pretende o presidente Lula? O PMDB fecha com o PT, faz a coligação formal com o PT mas se divide, ou coliga-se formalmente com o PSDB-DEM, fechado ou dividido? O que a crise econômica e financeira global produzirá no quadro eleitoral brasileiro até o segundo semestre de 2010? Alguém realmente sabe ou estão aí na mídia apenas palpites?
E na Bahia? Como ficará a relação PSDB-DEM? O presidente do DEM e ex-governador Paulo Souto migrará para o PSDB para disputar o governo por esta legenda? Com ou sem apoio do DEM que sobrar? Com ou sem apoio do PR? E o DEM poderá coligar-se para a eleição de governador, não com o PSDB, mas com o PMDB? Tantas incógnitas ainda e as correntes “mais radicais” do PT com a pretensão de atropelar o futuro.
Bom para elas que cuidem de que o futuro não as atropele.
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