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quarta-feira, 26 de novembro de 2014
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Joaci Góes

A certeza histórica da morte do Aleijadinho, nome com que Antônio Francisco Lisboa passou a ser conhecido, a partir dos 40 anos, agora completando dois séculos, contrasta com a insolúvel dúvida sobre o ano de seu nascimento, se  a 29 de agosto de 1730 ou de 1738, em Vila Rica, depois Ouro Preto, Minas Gerais. É possível, aliás, que esta como outras dúvidas sobre sua vida e obra contribuam para a elevação da mística do seu merecido e crescente prestígio, como criador genial,  elevado ao posto de verdadeiro herói nacional e da própria raça humana, Brasil e mundo afora. Afinal de contas, tangenciam a esfera do mitológico os notáveis feitos de alguém que, além de nascido de infamante berço escravo, pelo labéu da cor, ainda foi acometido, ao longo de sua maior parcela de vida adulta, de doença incurável que lhe tolhia o uso regular das mãos. Entre os possíveis males que o vitimaram, descarta-se a lepra, como se propala, uma vez que sua segregação do convívio com as pessoas se deu por iniciativa própria, e não por imposição de terceiros, como invariavelmente ocorria com os leprosos. Entre os diagnósticos propostos para definir o mal que o flagelou, além da descartada lepra, incluem-se o reumatismo deformante; a sífilis escorbuto; a tromboangeíte obliterante; traumas decorrentes de uma queda; artrite reumatóide; poliomielite; ulceração gangrenosa das mãos e dos pés  e porfiria - doença que acarreta fotossensibilidade, explicativa, talvez, da sua opção para trabalhar à noite, ou sob a proteção de um toldo.

A alentada dúvida de oito anos decorre do seu registro de nascimento aludir ao ano de 1730, enquanto  seu atestado de óbito, de 18 de novembro de 1814, também de Ouro Preto, afirmar que ele morreu com 76 anos, o que significa que teria nascido em 1738. Pondo fim à polêmica, o Museu Aleijadinho, em Ouro Preto, oficializou o ano de 1738 como o do nascimento. Muito mais importantes do que a dúvida sobre o ano do seu nascimento são as que se referem ao acervo de sua autoria - como escultor, entalhador e arquiteto-, e a suas motivações artísticas, de tal modo especialistas brasileiros e estrangeiros divergem a respeito, embora, majoritariamente, considerem-no o maior artista barroco do continente americano, com um lugar de destaque na história da arte ocidental. Para muitos, ele é o Michelângelo brasileiro, comparável aos maiores mestres do Barroco, capaz de criar obras-primas no isolamento da Capitania de Minas Gerais, sem nunca ter saído do Brasil. Como observou o seu primeiro biógrafo, Rodrigo José Ferreira Bretas, em 1858, “Quando um indivíduo qualquer se torna célebre e admirável em qualquer gênero, há quem, amante do maravilhoso, exagere indefinidamente o que nele há de extraordinário, e das exagerações que se vão sucedendo e acumulando chega-se a compor finalmente uma entidade verdadeiramente ideal”. A tendência a pintar com as cores do arco-íris a vida e a obra do Aleijadinho tem sido uma constante de que não escaparam os modernistas brasileiros, mais de um século depois de sua morte, quando, motivados pelo propósito de construir um novo símbolo de brasilidade, tomaram-no como modelo, cuja mulatice sintetizava nosso cultural, religioso e multi-racial sincretismo.        

Fisicamente, o Aleijadinho foi descrito por Bretas: “Era pardo-escuro, tinha voz forte, a fala arrebatada, e o gênio agastado: a estatura era baixa, o corpo cheio e mal configurado, o rosto e a cabeça redondos, e esta volumosa, o cabelo preto e anelado, o da barba cerrado e basto, a testa larga, o nariz regular e algum tanto pontiagudo, os beiços grossos, as orelhas grandes, e o pescoço curto”.                A inexistência de retratos do Aleijadinho foi mitigada com a decoberta, em 1916, em Congonhas, de uma pequena pintura de um mulato bem vestido, com as mãos parcialmente ocultas, vendida como sendo o retrato do artista, de autoria atribuída a Mestre Ataíde.

O trabalho que disparou o interesse pelo nosso mais famoso artista foi o do historiador e crítico de arte francês, Germain Bazin, curador do Museu do Louvre no pós-guerra, no livro póstumo, O Aleijadinho. Além da excepcional qualidade do seu trabalho, a genialidade do Aleijadinho consistiu no fato de antecipar-se ao Romantismo, construindo uma obra que era a expressão de sua alma - aspirações e sofrimentos-, e de sua visão do mundo. O período que viveu coincidiu com a transição do Barroco para o Rococó. O Barroco nasceu no início do Século XVII em reação ao classicismo do Renascimento, opondo a assimetria à simetria, o excesso à proporcionalidade, a expressividade e a irregularidade à racionalidade e ao equilíbrio formal. Mais do que simples estética, essas características dos dois períodos correspondiam aos seus respectivos modos de viver. O Barroco enfatizava o contraste, o grandiloquente, o dramático, o conflituoso, o dinâmico, a superação dos limites, tudo isso acompanhado de opulência e luxo, receituário perfeito para a afirmação das monarquias absolutistas e da Igreja Católica da Contra-Reforma. O surto de construções monumentais nos domínios da fé, do poder e da cultura - como as igrejas, os palácios e os teatros-, teve o propósito subliminar de mesmerisar as pessoas, subjugando-as pela paixão do grandioso, do monumental, do espetacular. É por isso que, para ser compreendida, a arte barroca tem que ser analisada no contexto em que emerge, pois que dele é a expressão.  No plano verbal, o estilo barroco se impôs tanto ao ensino religioso quanto ao laico, com sua retórica hiperbólica, a um só tempo grandiloquente e minuciosa, de que o Padre Vieira foi a expressão máxima em língua portuguesa. Contrariando os que têm o Aleijadinho na conta de um mestre do Rococó típico, alguns intérpretes de peso vêem sua obra como a transição entre o Barroco e o Rococó, tendo fugido do primeiro sem chegar ao último.

Prova adicional de como tudo que se relaciona ao Aleijadinho é objeto de infindáveis querelas exegéticas, é muito discutida sua filiação a qualquer das escolas mencionadas. Alguns apontam em sua obra a presença do Gótico, que teria conhecido através de gravuras florentinas. Mário de Andrade, expressando o regozijo da descoberta do Aleijadinho como um modernista que se antecipou em 150 anos ao movimento de 1922, falou dele como um épico, ao sustentar que: “o artista vagou pelo mundo. Reinventou o mundo. O Aleijadinho lembra tudo! Evoca os primitivos italianos, esboça o Renascimento, toca o Gótico, às vezes é quase francês, quase sempre muito germânico, é espanhol em seu realismo místico. Uma enorme irregularidade cosmopolita, que o teria conduzido a algo irremediavelmente diletante se não fosse a força de sua convicção impressa em suas obras imortais”. Boa parte da critica moderna o vê como excepcional artista, o primeiro genuinamente brasileiro, um fenômeno singular na evolução da arte no Brasil, representando uma síntese das várias raízes sociais, étnicas, artísticas e culturais que fundaram a nação. Enquanto Bazin o saudou como o “Michelangelo brasileiro”, para Carlos Fuentes ele foi o maior “poeta” da América colonial. José Lezama Lima, considerado o patriarca das letras cubanas, e grande estudioso do Barroco, disse que ele foi a “culminação do Barroco americano”; enquanto muitos lhe conferem lugar de relevo na história da arte internacional, outros tantos afirmam que suas obras já se identificam com o Brasil, ao lado do samba e do futebol.   

O resultado disso é que o número de peças atribuídas a ele subiu de 163, na primeira catalogação feita em 1951, para 425, num catálogo publicado por Márcio Jardim, em 2006. E a tendência desse número é crescer, forçada pelos setores interessados na magnificação do seu prestígio.

Quase nada se conhece da vida pessoal do Aleijadinho, a não ser que gostava de se divertir nas “danças vulgares”, comer bem, e que se amancebou com a mulata Narcisa, tendo com ela um filho, retrato falado dos homens em todas as épocas. Nada se sabe, também, do que pensava sobre arte. Vivia da meia oitava de ouro que ganhava por dia pelas encomendas que executava, renda insuficiente para torna-lo rico, inclusive porque seu desleixo em matéria de dinheiro tornava-o presa fácil dos vigaristas de todas as eras, o que não comprometeu sua habitual generosidade com os pobres. Seus três escravos cumpriam diferentes missões: Maurício, seu ajudante principal; Agostinho, auxiliar de entalhes, e Januário era quem guiava o burro em que se transportava. Não há elementos que permitam inferir o pensamento político do Aleijadinho, embora se saiba que manteve relações de amizade com o inconfidente Cláudio Manoel da Costa, o que não impede ilações como as de Gilberto Freyre e outros estudiosos de verem em suas criações um veemente protesto contra a opressão dos portugueses sobre os brasileiros e dos brancos sobre os negros. De acordo com essa visão, cada um dos profetas do Aleijadinho seria um inconfidente bíblico com roupagem barroca. Há até quem distinga nos profetas uma série de símbolos maçônicos.

Antônio Francisco Lisboa era filho da escrava africana Isabel com seu amo, o respeitado mestre-de-obras e arquiteto português, Manoel Francisco Lisboa, que o alforriou no ato do nascimento. Supõe-se que foi com o pai que Aleijadinho aprendeu desenho, escultura e arquitetura. Do mesmo modo, acredita-se que ele tenha estudado gramática, latim, matemática e religião. Com a morte do pai, em 1767, Aleijadinho não foi contemplado no testamento, em face de sua condição de filho bastardo.

Até 1777, período anterior à doença, suas obras se caracterizam pela serenidade, equilíbrio e harmonia. A partir da doença, Aleijadinho começa a imprimir uma feição mais expressionista às suas criações. A obra máxima do Barroco brasileiro - as 66 figuras dos Passos da Paixão, em tamanho natural, esculpidas em cedro, iniciadas em 1796 e concluídas em 1799, e os 12 profetas, em pedra-sabão, da Igreja de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, esculpidos entre 1800-05-, é desse período.

A partir de 1812, sua dependência de terceiros para transportá-lo de um lugar a outro, ou para amarrar em seus braços os instrumentos de trabalho, foi total. Vencido pela doença e pela cegueira, terminou por recorrer à generosidade da nora, em cuja casa e sob cujos cuidados viria a morrer no dia 18 de novembro de 1814, sendo sepultado na Matriz de Antônio Dias, junto ao altar de Nossa Senhora da Boa Morte, cuja festa, como juiz, julgara pouco antes de aninhar-se nos braços da eternidade. Conforme declarou a nora a Bretas, um lado do seu corpo ficou coberto de chagas, enquanto ele, repetidamente, implorava a Cristo que pusesse fim ao seu sofrimento, pisando seus santos pés sobre o seu corpo miserável.                    

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