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sexta-feira, 24 de março de 2017
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Joaci Góes

A Paulo Darzé Galeria, no Corredor da Vitória, foi palco, na última terça-feira, do lançamento, em primorosa edição bilíngue, inglês-português, com belas fotos e com alta qualidade literária, do livro Floresta, cacau e chocolate, de autoria do casal Luiza Olivetto-Diego Badaró, tendo como tema o trabalho que vêm desenvolvendo para melhorar a qualidade do fruto do cacaueiro, na Região de Ilhéus, com vistas, sobretudo, ao seu uso como matéria prima na produção de chocolate. Pela primeira vez, a qualidade do fruto do cacau é perseguida com o mesmo cuidado artesanal com que se cultivam as diferentes uvas, destinadas à produção dos bons vinhos.

Diego Badaró pertence à quinta geração que descende de Juca Badaró, personagem de Jorge Amado, em Terras do sem fim, e São Jorge dos Ilhéus. Os benéficos efeitos do seu trabalho alcançam também, a título de exemplo, a produção de doces, geleias, sucos, vinho, aguardente e vinagre, além da utilização da casca dos cacauais na construção de divisórias e produção de adubos e ração animal, atividades que proporcionam à pecuária a industrialização de laticínios, como o leite, o queijo, iogurte, sem falar na carne frigorificada, na farinha de osso e nos artigos de couro. Nesse caso, pelo menos, podemos ter a certeza de que a carne não é fraca. A Mata Atlântica agradece.

O chocolate é feito da amêndoa do cacau, fermentada e torrada. Além dos açúcares e edulcorantes, entram como aditivos na sua fabricação a manteiga de cacau, o leite em pó ou condensado, o cacau em pó, sorbitol, lecitina de soja e aromatizantes. Atenção especial é dada à obtenção da cor, em razão de sua influência, no desenvolvimento do apetite e do paladar.

Atribui-se a tradição de presentear namorados com chocolate à iniciativa da princesa Maria Teresa, da Espanha, de ter enviado ao noivo, Luís XIV, da França, uma cesta com chocolates, na forma de coração. Sua origem remonta às civilizações pré-colombianas da América Central. Levado para a Europa, pelo colonizador, logo após os descobrimentos, lá se popularizou, sobretudo, a partir dos séculos XVII e XVIII. Endêmico de clima tropical úmido, o cacau não prospera na Europa, expandindo-se na América do Sul e na África Ocidental.

O cacaueiro é uma planta nativa de uma área que vai do México até a região tropical da América do Sul, passando pela América Central. A planta vem sendo cultivada, aí, há cerca de três mil anos. Apesar de ter sua origem no continente americano, a produção e o consumo de chocolate foram introduzidos no Brasil pelos colonizadores europeus. A partir de uma lenda que sustenta ser o cacau alimento dos deuses, o botânico sueco Carolus Linnaeus batizou-o como Theobroma, do grego Theo, Deus, e broma, alimento.

O brasileiro gosta tanto de chocolate que consolidou sua presença no mercado mundial como o terceiro maior consumidor do produto, abaixo, apenas, dos Estados Unidos e Alemanha, em números absolutos, já que os suíços são os campeões do consumo per capita. Numa pesquisa feita com 2.000 consumidores, o chocolate brasileiro recebeu nota 8,6 contra 7,4 conferida ao produto importado.

Mesmo quando a produção brasileira de cacau caiu de um quarto para 5% da produção mundial, a produção baiana de 100 mil toneladas/ano representa 85% da produção nacional. À frente do Brasil, encontram-se a Costa do Marfim, Gana, Indonésia e Nigéria. O uso do chocolate para vários fins e em diferentes momentos da vida humana explica o grande número de livros e filmes inspirados nas motivações que desperta.

Vassoura de bruxa à parte, Ilhéus é o município, historicamente, mais mal administrado de todo o Estado da Bahia, quando comparamos suas enormes possibilidades econômicas, ambientais, históricas e sociais com os resultados pífios alcançados, como demonstramos no livro Como governar um Estado, o caso da Bahia, a ser lançado no curso do corrente ano.

O maior de todos os erros, no aproveitamento da avenida de possibilidades que o cacau oferece, decorre da incompetência de não termos sido capazes de criar na Bahia um poderoso pólo de produção de chocolate de alta qualidade, para consumo global. O grande livro de Luiza Olivetto e Diego Badaró revela, precisamente, os caminhos que já estão percorrendo, através da fábrica Amma, instalada no Porto Seco-Pirajá, cujos produtos são de qualidade internacionalmente reconhecida, para permitir ao nosso Estado recobrar-se de sua pasmaceira histórica.

Chocalipse, como aprendemos com a edição 2471 de Veja, de 30 de março de 2016, é o nome dado ao fenômeno que aponta para uma crescente escassez mundial do chocolate, em razão da iminência do consumo ultrapassar a oferta, provocando uma elevação do preço em cerca de 60%, já em 2020, para quando se estima um déficit de um milhão de toneladas do produto. Ruim para os consumidores, excelente para os produtores de cacau.

A expansão do consumo entre chineses e indianos que, conjuntamente, respondem por mais de um terço da população mundial, é a principal causa dessa saudável crise, cujo lado negativo reside na aparente impossibilidade de aumento da produção da amêndoa, pela tríplice razão: social, econômica e ambiental, consoante um relatório denominado Barômetro do Cacau, divulgado em 2015 por um consórcio internacional de produtores. A ética internacional está de olho na exploração de mão de obra infantil praticada pelos produtores africanos. Sua imperativa substituição por mão de obra adulta encarecerá o custo de produção.

O problema social é substituído pelo econômico. O problema ambiental, ultrapassado por Luiza e Diego, reside na utilização de agrotóxicos agressivos para vencer as pragas, como a vassoura de bruxa, disseminada no Sul da Bahia, segundo alguns, por grupos sindicais de esquerda, com o propósito criminoso de erodir o poder dos coronéis. Um verdadeiro tiro no pé. 

O trabalho pioneiro de Luiza e Diego, minudenciado em Floresta, cacau e chocolate, livro que precisa ser lido e refletido por quem tem interesse no desenvolvimento de nosso Estado, constitui a mais marcante contribuição ao desenvolvimento da Bahia, neste início de milênio.
 

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