TRÂNSITO AO VIVO
WhatsApp: 71 9206-5826
sexta-feira, 6 de maio de 2016
FIQUE SABENDO AGORA
PUBLICIDADE

Joaci Góes

A Justiça Brasileira não merece a confiança de 70% da população, conforme pesquisas da ICJBrasil, Índice de Confiança na Justiça do Brasil, a ponto de 67% preferir recorrer a meios alternativos na busca de resolução de seus conflitos, ao invés de procurar o Judiciário, preponderando a desconfiança dos homens sobre a das mulheres. 

O levantamento foi feito nos primeiro e último trimestres de 2014. Entre 11 instituições avaliadas, a Justiça figura em oitavo lugar, à frente, apenas, dos Partidos Políticos, do Congresso Nacional e do Governo Federal. Ou seja: as principais instituições nacionais figuram nos últimos postos na confiança da sociedade brasileira. Antecedendo o Judiciário, na confiança popular, aparecem as Emissoras de TV, a Polícia, as Grandes Empresas, a Mídia Escrita, o Ministério Público, a Igreja Católica e as Forças Armadas.

Observe-se que a confiança no Judiciário caiu de 33% para 26% no período levantado, enquanto a confiança no Aparelho Policial subiu de 31% para 36%, e a do Congresso Nacional passou de 15% para 19%. A fé nos Partidos políticos, por sua vez, evoluiu de 6% para magros 8%. 

Entre os entrevistados que se mostraram mais dispostos a realizar acordos extrajudiciais, aparecem em maior quantidade os respondentes do sexo masculino, os mais jovens, e os com maior renda e maior grau de escolaridade. Além disso, os entrevistados que responderam já ter utilizado o Judiciário são os que, em maior número, afirmaram que buscariam meios alternativos de solução de conflitos.

Para recobrar-se dessa vexatória posição, o Supremo Tribunal Federal, a quem cabe a maior fatia de responsabilidade na edificação do prestígio da Justiça Brasileira, poderia recorrer à concepção grega do tempo, mas de modo dialético. No sentido tradicional, e universalmente aceito, o tempo tem a mesma acepção de transcorrência imutável, ubíqua e linear, insusceptível de discussão: um minuto compreendendo sessenta segundos; uma hora valendo sessenta minutos; um dia vinte e quatro horas, e assim por diante. A essa dimensão quantitativa e estável do tempo os gregos denominaram Cronos, em homenagem ao Deus do mesmo nome. O tempo da vida pulsante, porém, qualitativo, marcado pelas paixões humanas, era medido por outro diapasão, em que o alegre e feliz passa celeremente, enquanto as amarguras da vida, as perdas, os confinamentos, as doenças, as frustrações, os desenganos transcorrem de modo insuportavelmente lento.

A esse tempo qualitativo os gregos denominavam Kairós, em alusão ao Deus da quantidade. Em razão dessa dessemelhança, Cronos é representado por um ancião, pacificamente sentado, expressivo de estabilidade, regularidade e previsibilidade, enquanto Kairós é simbolizado por um irrequieto adolescente nu, com um cacho de cabelo caindo da testa, unicamente por onde pode ser apanhado, numa tácita advertência do caráter fugaz e fugidio das oportunidades da vida.

A partir dessa dialética conceituação do tempo, podemos concluir que sejam quais forem os caprichos de Kairós, suas diabruras transcorrem entre as inflexíveis balizas de Cronos.

Não é difícil enquadrar as diferentes ações humanas na moldura preponderante, nunca exclusiva, de cada uma dessas transcorrências. O funcionário público, o piloto e o vigia, por exemplo, observam, quase exclusivamente, o ritmo de Cronos, enquanto o guerrilheiro, o jogador de futebol e o assaltante submetem-se, imperiosamente, ao compasso de Kairós, domínio do imprevisto. Os três poderes, porém - Legislativo, Executivo e Judiciário-, só serão produtivos na medida em que forem capazes de se ajustar a ambos os tempos, mutantes, por excelência. 

O governo da Presidente Dilma se perdeu por não ter sido capaz de ajustar suas ações aos chamados de cada um desses momentos. O nosso Legislativo apodrece graças ao baixo nível educacional do povo brasileiro, concomitantemente ao processo de sua decomposição moral, como advertiu Roberto Pompeu de Toledo.

Só por comodidade e conveniência dos seus membros, podemos aceitar a insensibilidade de nossa Suprema Corte, diante de desmandos que clamam por quebra de rotina, como se obrigam os bombeiros que saem da merecida sesta para o imediato combate ao fogo avassalador. Enquanto o ambiente moral do País arde na abrasiva chama da permissividade geral, nosso Excelso Pretório mantém-se, burocraticamente, apegado ao tempo de Cronos, para proveito dos malandros que atuam sob a inspiração do leviano Kairós. Ao negar, por discutível e superável inconstitucionalidade, a cláusula de barreira que punha fim à promíscua prática     pluripartidária brasileira, nossa Suprema Corte prestou um desserviço à moralização das práticas políticas no Brasil.

Há casos e casos a serem apreciados pela Suprema Corte. Não lhe calha bem, porém, a observância de uma impassibilidade que a leva a perder de goleada para um juiz de primeiro grau, em matéria de eficiência e afirmação de altivez no julgamento da consciência nacional.
 

Colunas anteriores
Outras notícias: mais recentes · mais antigas
SIGA A TRIBUNA
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
EDIÇÃO ONLINE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE