Joaci Góes - Tribuna da Bahia
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domingo, 5 de julho de 2015
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Joaci Góes

Em meados do Século XIX, a corrupção grassou com tamanha intensidade nos Estados Unidos que o sentimento predominante entre as pessoas era o de desespero, de que se encontravam na casa do sem-jeito, reino do salve-se-quem-puder, algo do tipo cada qual por si, porque nada havia a esperar de uma convivência pautada pela degradação dos costumes, estimulada e imposta por instituições nada respeitáveis. Os filmes de bang-bang captaram aquele espírito coletivo, quando as cidades eram submetidas ao espúrio consórcio entre o prefeito, o xerife, o juiz e um grande empresário, ora um grande fazendeiro, ora o proprietário de uma estrada de ferro em construção, ou de uma mina de pedras preciosas. Quando já não havia esperanças, eis que adentrava o cenário a figura do mocinho salvador, valente, bonito, íntegro e excepcional atirador, culminando o enredo com o triunfo do bem. É verdade que, em muitos casos, a vitória era regada com o sangue do herói, quando não encerrada com uma grande frase de efeito, como no filme em que o mocinho, John Wayne, sentenciou: “Se o mundo fosse de ouro, os homens se matariam por um pedaço de barro”.

O tempo passou e a grande nação americana deu a volta por cima e se afirmou como a maior potência econômica, política, militar, diplomática, científica e democrática do Globo. Tudo isso na pregação e na prática do princípio segundo o qual a lei vale para todos, na linha da Magna Carta inglesa de 1215, documento histórico que celebra oito séculos, no corrente ano. Princípio sempre presente no evangelho de Ruy Barbosa, com seu famoso aforismo: “Com a lei, pela lei, dentro da lei, porque fora da lei não há salvação”.

Penso que, ainda que tenhamos alguns degraus a descer na escada dos desmandos que caracterizam a prática do poder público brasileiro de nossos dias, a crise política, econômica e moral que atravessamos tem tudo para figurar na retrospectiva histórica que se fizer no futuro como o ponto de inflexão para o retorno da prevalência de padrões éticos sem os quais os países não passarão de arremedo de nações prósperas e felizes, como tem sido o estado crônico da sociedade capenga que edificamos no Brasil.

A 14ª etapa da operação Lava Jato, batizada como Erga omnes, traz embutida a mensagem de que o verdadeiro inspirador desse assalto sem precedentes aos cofres públicos, que todos sabem ou intuem quem seja, será alcançado e punido, do mesmo modo que estão sendo punidos e execrados alguns dos maiores empresários brasileiros - reconhecidos responsáveis por substancial parcela do desenvolvimento nacional-, por terem se submetido aos achaques dos representantes do poder político dominante, na base do “ou dá, ou desce”, como ficou claro na delação premiada de um grande empreiteiro, publicada meio às 28 páginas que Veja dedicou à crise brasileira, em sua edição desta semana.

A exemplo do que ocorreu com o Gigante do Norte, confio que a crise que atravessamos poderá ter, também, o significado de oportunidade, como entendem os chineses.

Quem sabe se o espírito da octocentenária Magna Carta inglesa, travestido de avatar, não se encarnará em nosso sistema judiciário, fazendo o povo brasileiro retomar os caminhos saudáveis da ética, sem a qual as nações não amadurecem, nem se consolidam?

Se perdermos esta oportunidade única, o jeito é refletir sobre a advertência de Sérgio Porto, o criativo Stanislaw Ponte Preta, ao sentenciar profético: “Acabemos com a corrupção ou locupletemo-nos todos”.

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