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terça-feira, 24 de janeiro de 2017
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Luiz Holanda

O empresário Carlos Alberto Fernandes Filgueiras, dileto amigo do ministro Teori Zavascki, tinha 69 anos quando faleceu, juntamente com mais quatro tripulantes, na queda do bimotor de sua propriedade, no mar de Paraty. Entre estes estava o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki, cuja amizade com o empresário data de cinco anos atrás, quando a esposa do ministro se internava no Hospital Sírio-Libanês para tratamento de um câncer. Nessa ocasião,Teori se hospedava no luxuoso hotel de propriedade do amigo.

Desde 2014 Zavascki era o responsável pela Operação Lava Jato, analisando os casos de pessoas com foro privilegiado, os chamados semideuses, além de ser o responsável pela homologação das delações premiadas e dos acordos de leniência. Antes de ir para o STF, Zavascki foi ministro do Superior Tribunal de justiça (STJ), indicado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e posteriormente nomeado pelo ex-sindicalista Lula da Silva, na função de Presidente da República.

Tão logo assumiu o cargo no STF, Zavascki passou a ser um dos magistrados mais visados dessa Corte. Desde 2014 era o responsável pela Operação Lava Jato, atualmente em fase de análise das delações envolvendo pessoas com foro privilegiado, inclusive para homologá-las ou rejeitá-las.

Antes do acidente o ministro havia interrompido suas férias para examinar a megadelação da construtora Odebrecht, que tem 77 pessoas envolvidas no maior escândalo de corrupção já visto no país, com mais de duzentos políticos de quase todos os partidos com assento no Congresso Nacional.

Para explicar a amizade entre Teori Zavascki e o empresário Carlos Alberto Filgueiras, faz-se necessário recordar algumas ações julgadas pelo ministro envolvendo o universo empresarial do amigo, que tinha, como sócios, diretores de banco investigados na Operação Lava Jato, inclusive o diretor da instituição financeira conhecida como Banco BTG Pactual, cujo ex-presidente, André Esteves, foi solto por ordem do ministro.

Em dezembro de 2015 Teori revogou a prisão de Esteves, transformando-a em prisão domiciliar, que durou até abril de 2016, quando a revogou totalmente. A imprensa divulgou que a Fort Mar Empreendimentos e Participações, uma das empresas de Carlos Alberto, tem 90% de seu capital social em nome do Development Fund Warehouse, um fundo de Investimentos do BTG Pactual.

Sem adentrar nos motivos pelos quais o ministro estava no avião sinistrado - e sem qualquer crítica ao seu comportamento -, não se pode deixar de observar que o cidadão comum jamais entenderá a amizade íntima de um ministro do STF com um empresário, cujos sócios estão envolvidos na Operação Lava Jato, sob a relatoria do ministro. Para o cidadão comum, essa amizade não era a mais recomendada, sobretudo neste momento, no qual a lama da corrupção envolve, praticamente, todos os poderes da nação, além dos empresários.

Tampouco o homem comum compreenderá como normal a contratação do ex-presidente do STF, Nelson Jobim, amigo do ministro Teori Zavascki, como advogado do Banco Pactual. Aliás, segundo a imprensa, Jobim se tornou sócio de André Esteves e membro do Conselho de Administração do banco, responsável pela área de relações institucionais e políticas de compliance.

No avião sinistrado se encontravam duas mulheres: a bela dançarina, a massagista, Maira Panas, de 23 anos, e a sua mãe, de 55 anos. Mesmo não havendo nada de mais, a presença dessas mulheres deverá ser explorada quando as emoções da tragédia baixarem. O ministro, como qualquer ser humano, tinha todo o direito de estar em qualquer lugar, desde que, face o cargo que ocupava, mantivesse a dignidade em todos os sentidos. E isso, pelo visto, ele manteve.

Daí a certeza de que tudo terá uma explicação se, por acaso, houver especulações de natureza política ou pessoal em relação a essas pessoas envolvidas no acidente. O mundo jurídico e, em especial, os parentes e amigos do ministro, sentiram um pesar que só a morte de poucos homens poderia causar. Seus colegas o prantearam como um irmão, que foi o que ele se tornou para eles.

Com certeza o ilustre morto jamais se apercebeu das qualidades que possuía e da honestidade proclamada por seus admiradores. No sentido pessoal, são coisas que podem parecer pequenas, insignificantes, mas, no profissional, são muito admiradas pelo povo. Assim, considerando a pouca credibilidade dos seus colegas que compõem a Segunda Turma da Corte, Zavascki, em pouco tempo de STF, realizou mais do que todos eles.

Discretíssimo, manteve sob sigilo a viagem para Paraty. Não informou, sequer, à sua família. Até para a imprensa mandou dizer que estava interrompendo as férias para decidir sobre as delações da Lava Jato, principalmente a da Odebrecht, considerada a mais perigosa de todas.

Como disse um grande autor, a morte de todo ser humano o entristecia porque ele fazia parte do ser humano. Não deve ser diferente com Teori Zavascki.Oremos por sua alma, pois nossas orações servem como uma espécie de viático, o único alimento para quem vai fazer a viagem mais longa do mundo. Junto com o ministro, a Lava Jato também caiu no mar, mas, em relação a ela, nada podemos fazer. Os seus colegas - garantistas da impunidade -, já iniciaram uma guerra interna para deixá-la onde ela está, submersa, no fundo do mar de Paraty.

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