Ir para o trabalho e para quase todos os lugares da cidade de bicicleta. Difundido em algumas metrópoles brasileiras, como Rio de Janeiro e Recife, o ciclismo pode ser uma das alternativas de mobilidade urbana também para Salvador. Com uma frota de 656 mil veículos, a capital baiana tem hoje um dos trânsitos mais complicados do país. Uma palestra sobre mobilidade e autotransporte marcou o Dia Mundial Sem Carro na cidade. Apesar da campanha do governo federal, poucas ações foram notadas no dia de ontem em Salvador. De acordo com alguns especialistas, na hora do rush, a bicicleta é a alternativa mais rápida.
Engarrafamento, falta de estacionamento e de infraestrutura são alguns dos problemas provocados pelo aumento da frota de carros na terceira capital do país. De acordo com o psicólogo, ativista em mobilidade urbana e integrante da ong nacional Transporte Ativo, Lucas Portela, andar de bicicleta é uma das opções para um tráfego mais livre, não apenas de congestionamento, mas também de poluição.
“Mesmo sem muitas ciclovias na cidade é possível fazer desse um meio de transporte rápido”, afirmou durante palestra, realizada no auditório do Centro de Atenção a Saúde Professor José Maria de Magalhães Netto, prédio do Planserv, na Avenida ACM.
O psicólogo vive a situação na prática, pois quase todos os dias vai de bicicleta ou a pé para o trabalho. Ele mora no Itaigara e trabalha na Avenida ACM.
“O poder público nunca encampou isso. É preciso uma ação maior não só de investimentos em infraestrutura viária, transporte de massa, mas de propaganda de conscientização para que as pessoas vejam a bicicleta como uma alternativa”, afirmou Lucas.
Segundo Portela, até a década de 60, a sociedade soteropolitana caminhava bastante, mas o crescimento da cidade sentido ao Norte criou uma cultura parecida com a americana – de maior dependência do carro. “Para andar de bicicleta não se depende de nada, de nenhum recurso estatal. É preciso apenas conhecer as leis de trânsito e o ciclista deve se comportar como motorista”, enfatizou.
Conforme o psicólogo, não se pode culpar apenas a Prefeitura e os órgãos, mas a questão do trânsito também passa por outros fatores. “O gestor público é o principal responsável pelo trânsito, mas o meio de transporte é uma escolha individual”.
Escola deve acabar analfabetismo urbano
O principal abismo nessa questão, segundo ele, é a falta de educação para o trânsito que deveria começar cedo nas escolas. “É preciso uma correção do analfabetismo urbano. Nas escolas brasileiras não se ensina geografia urbana, ocupação do solo. Na Argentina, México, entre outras existem aulas sobre tudo isso. A consequência dessa falta de conscientização é que a população não sabe ler a cidade. Enquanto todos utilizarem carros, os engarrafamentos serão inevitáveis.
“Várias outras capitais brasileiras já têm boas alternativas de integração de meios de transporte urbanos em expansão, mas aqui é preciso discutir o assunto para envolver a sociedade”, ressaltou.
Durante a palestra foram apresentados vídeos sobre o uso da bicicleta e o trânsito de alguns lugares como Rio de Janeiro e Porto Alegre, capitais que fazem campanhas pelo uso da “magrela”.
No Rio a campanha “Pedale Legal” tem surtido efeitos positivos. Propagandas incitam a cidade a se tornar a capital nacional da bicicleta. Para Portela, Salvador pode repetir esse tipo de campanha. “Os únicos problemas são a falta de conscientização e a desigualdade social que pode gerar roubos”, destaca.
Além da bicicleta, ele defendeu também o retorno de investimentos em elevadores urbanos, a exemplo dos planos inclinados e do Elevador Lacerda, como opções de mobilidade urbana. “O último plano inclinado que foi o da Liberdade foi construído há 40 anos. Uma opção seria a implantação de um elevador entre a Federação e o Rio Vermelho e outro entre Brotas e o Itaigara”, sugeriu.