Se estivesse vivo, o artista plástico alemão Karl Heinz Hansen, ou Hansen Bahia, como é conhecido, completaria 95 anos de idade em abril. Para marcar a data, a Fundação Hansen Bahia realiza, entre os dias 23 de fevereiro e 3 de abril (de segunda a sexta-feira das 9h às 18h30 e aos sábados até às 13h), na galeria do Instituto Cultural Brasil-Alemanha (ICBA), em Salvador, uma exposição de xilogravuras e matrizes que compõem o acervo da casa em São Félix, interior da Bahia, onde o artista viveu os últimos anos de sua vida ao lado da esposa, Ilse Hansen.
As matrizes que serão apresentadas na Exposição Hansen Bahia 95 anos estavam integradas às paredes da casa localizada na Fazenda Santa Bárbara e faziam parte da intimidade do artista. “Todas foram restauradas pela primeira vez por meio de um investimento do governo alemão da ordem de R$ 85 mil”, conta a curadora da exposição, Lêda Deborah.
Esta é a segunda vez que o governo alemão patrocina investimentos na Fundação Hansen Bahia. Nos anos 90, também com a intervenção do consulado alemão, a Embaixada da República Federal da Alemanha no Brasil contribuiu com aquisição de computador, construção da reserva técnica de São Félix, restauro e emolduramento de obras para exposição. “Hansen é um artista impressionante e importante, uma presença alemã forte na Bahia e a obra dele tem que ser preservada”, afirma o atual cônsul da Alemanha na Bahia, Hans Jürgen.
Segundo o diretor executivo do Goethe-Institut Salvador-Bahia, Ulrich Gmünder, o artista alemão que, ao radicar-se na Bahia, introduziu a xilogravura no Estado merece este novo apoio. “Para nós, é uma grande honra poder conservar a obra de Hansen. Esperamos que o público aproveite para conhecer melhor as obras dele”, declara Ulrich.
Para o artista conselheiro da Fundação Hansen Bahia, Justino Marinho, “a iniciativa do governo alemão foi bem vinda, porque a obra de Hansen tem um valor muito grande e marca um período importante das artes baianas. Vale destacar que além dos trabalhos de Hansen foram restauradas obras de outros artistas importantes como Carybé, Mario Cravo, Genaro e outros, que fazem parte do acervo deixado pelo gravador”, declara.
De acordo com o restaurador das matrizes, José Dirson Argolo, o estado de conservação das 22 peças estava muito comprometido. “Nem sempre o artista se preocupa com a manutenção de sua arte. Hansen, por exemplo, utilizou materiais como compensado, que não resiste ao ataque de cupins e infiltrações. Por isso, o processo de preservação é necessário e, neste caso, demandou um trabalho árduo que realizamos em 10 meses”.
Tudo novo
O restaurador João Magalhães foi o responsável pelo “conserto” de 56 xilogravuras, sendo 27 da coleção “Navio Negreiro” e 15 da “Via Crucis do Pelourinho”. Entre as demais gravuras restauradas estão “O diálogo das héteras”, “Portas e janelas”, “Cangaceiro a cavalo”, “Vaqueiro laçador”, “Grande Candomblé”, “Forte de São Marcelo”, “Flor de São Miguel”, “Amigas em vermelho”, “Boi caído” e “Amigas no banho”. Outras obras de Hansen restauradas foram “Limão”, “Noé e as pessoas que oravam na popa da arca”, “Batalha das Amazonas”, “São Miguel”, “O cavaleiro, a morte e o diabo” e “Aniversário de Ilse”.
Nem todas as obras restauradas estarão no ICBA durante a exposição que começa logo depois do Carnaval, apenas as de autoria de Hansen Bahia que puderam ser retiradas da casa, já que algumas não puderam ser removidas por estarem profundamente embutidas em paredes. Estas foram restauradas in loco na última semana de janeiro. Todas as obras restauradas, porém, continuarão fazendo parte do acervo da casa e poderão ser vistas na cidade de São Félix a partir de abril.
Restaurações
Segundo José Dirson, o processo de restauração das matrizes começou com uma limpeza superficial. Depois, a camada pictórica sofreu um faceamento (proteção com papel japonês e um tecido fino). Só então os carpinteiros escavaram as paredes em volta das peças que foram retiradas e embaladas em plástico bolha e espuma de nylon. A madeira passou por um consolidamento, ou seja, teve sua parte carcomida substituída por compensado naval de cedro previamente imunizado. Após a reintegração cromática e os retoques feitos com tintas importadas exclusivas para restauração (mameri), as obras receberam um verniz protetor e molduras de cedro.
O restaurador das xilogravuras, João Magalhães, conta que “após a limpeza a seco para tirar gordura, foram retiradas as fitas adesivas e emendas de papel. Depois, as xilogravuras foram lavadas em solução de água deionizada com hipoclorito e depois só com água. O molho durou cerca de 50 minutos. Após serem retiradas da água e secadas parcialmente, as gravuras foram inseridas numa base de cola de celulose. O papel ainda úmido foi prensado com camadas de papel mataborrão para não ondular. Essas camadas foram acrescentadas em tempos espaçados de até 24 horas durante uma semana. Só depois desse tempo foram feitos a obturação de lacunas de papel (com cola de celulose), o reforço do papel e os retoques de tinta, quando necessários”.