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Lição de violência na Ufba
Estudante é atacada. Colegas se revoltam
Por Hieros Vasconcelos
Mais de 500 estudantes da Universidade Federal da Bahia (Ufba), fecharam a pista em frente à Reitoria da instituição em protesto pela tentativa de estupro sofrida pela estudante A., 21 anos, aluna do curso de Dança, ocorrido por volta de 10h30 de ontem, no matagal do Pavilhão de Ondina. A garota foi abordada por um homem armado dentro da unidade educacional e levada até uma trilha, no meio de um matagal, que liga a Escola de Dança à Escola de Letras, onde sofreu as violências. A manifestação, que revelou a união dos estudantes em prol da segurança dentro da instituição, causou engarrafamentos nas pistas em direção ao Campo Grande, Federação e Canela por mais de três horas. O criminoso é de cor negra e vestia camisa e boné brancos. A facilidade com que o agressor entrou no pavilhão, armado, espantou e revoltou os alunos.
De acordo com informações da Reitoria da Ufba, a jovem atacada ontem no campus de Ondina está em estado de choque, e recebe assistência social, médica e psicológica da Universidade Federal da Bahia. Seus familiares, que residem em Minas Gerais, foram comunicados e devem chegar hoje a Salvador para acompanhar a estudante e cobrar providências da Ufba e da polícia.
De acordo com os alunos, a jovem foi vista por colegas em companhia do agressor, mas não esboçou reação nem deu sinais do que estava acontecendo porque o criminoso a ameaçava com uma arma apontada para sua barriga, mas que não pôde ser vista pelos estudantes. Ela estava sendo conduzida para o local do crime. Os amigos ainda falaram com ela e a moça disse que estava bem, sem levantar suspeitas. A violência só foi revelada uma hora depois, por volta de 11h30, quando a estudante entrou aos prantos na sala de aula e pediu socorro. Um funcionário a levou até a 14ª Delegacia de Polícia, onde foi prestado depoimento em companhia de cinco professores.
De acordo com a delegada da 14ª DP, Vânia Matos, a vítima estava nervosa e constrangida ao prestar depoimento. Disse que a tentativa de estupro ocorreu após o criminoso tentar assaltá-la e não ter encontrado pertences em sua bolsa. A delegada informou que a jovem foi submetida a exame de corpo de delito, no Instituto Médico Legal, e em 30 dias será comprovada a violência sexual. À delegada, a moça revelou que foi obrigada a
se submeter, às sevícias sob a mira de uma arma.
De acordo com o vice-reitor, a gestão institucional apresentou projeto de segurança que foi barrado pela comunidade acadêmica. Uma das propostas do projeto seria a permanência de PMs dentro da universidade, o que não agradou aos estudantes e professores. Caso aprovado o projeto, policiais militares teriam permissão para realizar rondas nos campus e abordar os estudantes em atividades “suspeitas”. Ele pediu ainda que os alunos pressionem os seus representantes para o assunto ser novamente discutido no âmbito universitário.
Para a representante do Conselho Universitário Poliana Rebouças, os policiais militares não estão preparados para atuar em um ambiente universitário e não é esse o desejo da comunidade acadêmica. Ela reafirma que o correto seria a presença da guarda universitária, proposta até então desprezada pela reitoria.
Ainda conforme Mesquita, a reitoria tem estudado formas de combater a criminalidade e a violência na universidade e algumas das medidas já apresentaram resultados. “A Ufba está trabalhando para melhorar a segurança. Nas faculdades de Direito e Medicina, por exemplo, não têm mais assaltos”, informou.
Também fazem parte do projeto apresentado pela instituição o cercamento da área verde do PAF III, melhorias na iluminação, na parte urbana do pavilhão e nas portarias. “Precisamos discutir essas questões, mas vamos reforçar a segurança nas portarias do PAF III e ao longo da parte urbana, além de pedir apoio da PM, que deverá atuar na parte externa. A região de Ondina é mais adensada por marginais”, pontuou.
Além de ser contra a presença da PM, a comunidade acadêmica também não quer o cercamento da área verde do PAF III e teme que ela seja destruída. Para os estudantes e alguns professores, a área faz parte da Mata Atlântica que restou da região. “Eles querem destruir a mata, uma das coisas mais bonitas que temos lá na universidade e que lutamos para preservar”, reclamou a estudante Mariana de Carvalho.
Por mais que se tentasse, foi difícil chegar a um consenso. O vice-reitor Francisco Mesquita foi vaiado e chamado de mentiroso pelos universitários ao afirmar que os campi da Ufba estão mais seguros do que antigamente. Conforme Mesquita, atualmente existem 480 homens prestando serviço para a instituição, distribuídos entre as funções de porteiros e vigilantes. Mesquista relatou ainda que existe circuito interno de câmeras que ajudou no combate à violência.
“O número de profissionais tem dado apoio e cobertura suficiente”, complementou.
Ataques são constantes na universidade
  ; A delegada plantonista da 14ª Delegacia da Barra, Vânia Matos, conta que há uma grande demanda de assaltos registrados pelos alunos, assim como de professores. “No momento não posso precisar o número exato. Mas posso assegurar que vários alunos já estiveram aqui registrando queixa contra os roubos e furtos dentro da Ufba. Também foram registrados queixa dos próprios professores que também foram vítimas dos assaltos. Agora registro de estupro ou tentativa foi a primeira vez”, disse Matos.
Essa realidade foi confirmada pelos estudantes, que com cartazes em mãos e desespero nos rostos protestaram em frente à reitoria. Muitos até choravam. Todos gritavam por ‘segurança já’. As cobranças eram dirigidas ao vice-reitor da Ufba, Francisco Mesquita que assumiu o posto em 2002.
“Todos os dias existem ocorrências que são comunicadas à 14ª delegacia (Barra). Os agentes policiais chegam a dar risada de nós quando vamos levar a notícia crime, de tanto ver a cara da gente por lá”, disse a jovem Suzane Lopes, estudante de filosofia. Suzane ainda contou que foi assaltada na semana passada no campus de São Lázaro e teve a bolsa e celular levados pelos bandidos.
Uma outra aluna gritava para o vice-reitor que sua amiga foi assaltada no pavilhão de Ondina e teve até a roupa levada pelos assaltantes que por pouco não a estupraram.
Entre vários questionamentos, os alunos pediam segurança local e mais iluminação nos arredores dos vários prédios que ficam situados no meio do mato, tornando os acadêmicos presas fáceis dos assaltantes.
Durante a conversa com o vice-reitor, houve vários desentendimentos e os estudantes com cartazes em mãos gritavam por providências. “Todos os dias somos assaltados, temos nossos carros roubados e ninguém faz nada. Queremos uma resposta rápida diante de um estupro dentro da faculdade”, disse Fernanda Fonseca, aluna do 5ª de dança.
O vice-reitor da Ufba, Francisco Mesquita acordou que formaria um conselho para decidir, com a participação dos estudantes, quais providências tomar para diminuir a insegurança. Mesquita sentiu-se acuado diante dos argumentos e prantos dos alunos, desesperados pelo que aconteceu com a colega. Garantiu que encaminhará os quesitos postos pelos estudantes ao conselho universitário, mas que não podia no momento garantir pela decisão que ele disse não ser de sua responsabilidade.
“Nós estamos buscando por melhorias na segurança dos alunos. Quando entrei para assumir como vice na reitoria nós tínhamos cerca de nove assaltos registrados por mês, depois de implantação de segurança esses registros caíram para três mensais”, revelou.
O principal quesito pautado pelos alunos é a entrada restrita para alunos da Ufba. No entanto o vice-reitor disse que não podia acabar com a mata atlântica e não podia cercar o campus por causa da população. “Já entrou em discussão cercar o campus de São Lázaro, mas a comunidade ingressou com ação devido ao acesso que tem de passar pelo local. Então não tivemos acesso legal da área”, pontuou.
O vice-reitor acrescentou que o campus de Direito e de Administração passava pelos mesmos problemas, “mas agora, depois de investimentos com câmeras internas e externas, além de segurança durante os turnos não se tem mais a incidência de assaltos”. Conforme Mesquita, cerca de 480 homens como segurança e vigilantes fazem a fiscalização dos campus do Canela, São Lázaro e Ondina. No entanto os estudantes ainda reforçaram que mesmo com os seguranças os assaltantes não se sentem intimidados. “Eu fui assaltada a poucos metros do segurança que
estava na guarita, ele viu e não fez nada”, disse Suzane. (Por Silvana Blesa)
Reitoria não tem recursos
  ; A Reitoria da Ufba deve decidir ainda hoje numa reunião com o conselho Universitário sobre a presença de policiais militares na extensão do Campus. Durante entrevista coletiva à imprensa, ontem à tarde no Museu de Arte Sacra da Bahia, o reitor Naomar Almeida assegurou que não há verba disponível para investir em segurança e estratégias emergenciais deverão ser utilizadas. “A PM terá autorização para reforçar a segurança em áreas consideradas vulneráveis e realizar rondas em momentos que não houver atividades no campus”, disse o reitor deixando dúvidas sobre o efeito dessas rondas.
Além da participação da Polícia Militar foi solicitado à prefeitura de Salvador melhoria na iluminação pública, urbanização e podas de árvores. Almeida, no entanto, rejeita a retirada de parte da Mata Atlântica. “Um crime não justifica outro”, argumenta.
O reitor também buscará parceria com a Polícia Ambiental. São 60 hectares, 30 mil pessoas circulando na área e várias ocorrências. Medidas terão que ser tomadas. Ressaltou que por duas vezes a reitoria propôs aos estudantes compartilhar projetos de segurança. O Grupamento de Policia Universitária é defendido pelo reitor , bem como a reiteração das
propostas de 2003 e 2005, e convênio com as polícias Federal, Civil e Militar. (Por Maria Célia Vieira)
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