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Mudar o foco do Carnaval

   O governo do Estado precisa mudar o foco do Carnaval de Salvador. Há uma concentração excessiva de esforços e de investimentos no item segurança, com um enorme contingente de homens nas ruas, algo em torno de 23 mil policiais, quando parte desse movimento poderia ser deslocado para o segmento cultural, de entretenimento, visto que o Carnaval é uma manifestação da cultura popular, entendendo-se esse popular como todos os níveis sociais em suas diferentes formas de atuação e de participar do reinado dedicado a Momo, a alegria, a festa da carne, como o próprio nome diz em sua origem romano religiosa e lúdica.
  Dos R$45 milhões que o governo do Estado investe na festa a metade fica reservada à segurança. O contingente de tropa posto nas ruas representa mais militares do que o efetivo do Comando Militar do Nordeste, o antigo IV Exército, com sede em Recife e batalhões espalhados na Bahia, Sergipe, Pernambuco, Ceará, Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte. Deve ser o maior aparato militar existente nos carnavais do Brasil para conter foliões em 20km de circuitos, isso sem considerar o contingente de seguranças contratado pela iniciativa privada para servir nos camarotes, bares, hotéis, blocos e restaurantes.
  De repente, diante de esforço tão gigantesto, difundiu-se no Brasil que o Carnaval de Salvador se tornou violento, que se organiza uma “operação de guerra” para conter os indicadores dessa violência, e o Estado embarca nessa onda, de cabeça, sem refletir que a festa pode ser modificada em alguns aspectos sem mudar o seu rumo e brilho, desde que se trabalhe a cultura da paz na cidade do Salvador de forma antecipada, e se estabeleça padrões menos eletrizantes ao evento.
  Em todos os sitios do Brasil o Carnaval começa na sexta-feira e termina na madrugada da terça-feira seguinte. Em Salvador, vai de quarta a quarta-de-cinzas. Um exagero, um excesso. Não traz nenhuma contribuição para a essência da festa, salvo para beneficiar pequenos grupos, e isso só acarreta uma logística de segurança sem similar no país.
  É óbvio que o governo do Estado não deve dar moleza na segurança para os seus cidadãos e turistas que vêm para o Carnaval. A questão que salta aos olhos, no entanto, é o enfoque que está se dando à segurança, situação que não se vê no Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Fortaleza, como se Salvador fosse uma terra onde ou se é protegido pelo corpo policial, ou é melhor não vir participar do Carnaval . Isso é péssimo para a imagem da cidade e para a Bahia.
  Veja que o Rio de Janeiro está fazendo um esforço enorme para dinamizar o seu Carnaval de rua, com bandas e eventos comunitários, com reforço de mídia da Rede Globo. Esse movimento, e o Jornal Nacional do último sábado abriu um enorme espaço para difundir o prolongamento desse Carnaval, o estica verão carioca até aproveitando o gancho do aniversário da cidade (1 de março), mostrando exatamente a descontração, a tranquilidade da festa, a família. Tudo, menos se falou de segurança, subentendendo-se que o Rio é a capital da paz. Ora, ainda que não seja (e todos nós sabemos que não é) o enfoque que os promotores dessa onda fazem está corretíssimo, valorizando a manifestação da cultura.
  A segurança entra como uma ação complementar, um dever do Estado, sem que para isso seja dado tanto destaque como acontece na Bahia. Tudo que a SSP da Bahia fez está corretíssimo e deve continuar fazendo numa boa. O problema é não passar aos olhos do país que o Carnaval de Salvador é seguro, tranquilo, que aqui se põe 23 mil homens nas ruas, que há armas paralisantes, jaulas no circuito da folia e coisas do gênero, porque esse tipo de ação midiática leva consigo uma contra-informação de que a violência domina o Carnaval da cidade da Bahia.
  Esse, portanto, é um tema bastante complexo a ser analisado pelos organizadores da festa e pelo governo da Bahia, visto que envolve uma série de fatores e essa cultura policial vem se organizando há anos e já se sedimentou no corpo dos seus líderes e comandantes. Deixá-los de fora da componente midiática da festa não seria o caso a fazê-lo de sopetão e/ou por decreto. Mas, existem maneiras do aparato de segurança operar com a mesma eficácia, sem que se torne um componente de primeira linha da festa.
  Primeiro vem a cultura. Depois, o mercantilismo reinante e impossível de ser eliminado do Carnaval, com seus artistas, astros, músicos e os “Dendês no Sangue”, os turistas e celebridades que só vão aos camarotes e só pisam em carpetes. Em seguida, as forças auxiliares, a segurança, saúde, fiscalização, transporte e outros. Hoje, infelizmente, está havendo uma inversão nesses papéis.

  * Tasso Franco é jornalista

  

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